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terça-feira, 25 de março de 2008

Florbela Espanca

À Janela de Garcia de Resende

 

Janela antiga sobre a rua plana...
Ilumina-a o luar com seu clarão...
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no poético balcão...

Dantes! da minha glória altiva e ufana,
Talvez... quem sabe?... tonto de ilusão,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balcão...

Mística dona, em outras primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado...

Bandeiras! pajens! o pendão real!
E na tua mão, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um coração chagado!...

Florbela Espanca

    Vaidade

     Sonho que sou a Poetisa eleita,
     Aquela que diz tudo e tudo sabe,
     Que tem a inspiração pura e perfeita,
     Que reúne num verso a imensidade !

     Sonho que um verso meu tem claridade
     Para encher todo o mundo !  E que deleita
     Mesmo aqueles que morrem de saudade !
     Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !

     Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
     Aquela de saber vasto e profundo,
     Aos pés de quem a Terra anda curvada !

     E quando mais no céu eu vou sonhando,
     E quando mais no alto ando voando,
     Acordo do meu sonho ...  E não sou nada! ...

Florbela Espanca

     Anseios

     Meu doido coração aonde vais,
     No teu imenso anseio de liberdade?
     Toma cautela com a realidade;
     Meu pobre coração olha que cais!

     Deixa-te estar quietinho!  Não amais
     A doce quietação da soledade?
     Tuas lindas quimeras irreais,
     Não valem o prazer duma saudade!

     Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
     Ai, vê lá bem, ó doido coração,
     Não te deslumbres o brilho do luar!...

     Não 'stendas tuas asas para o longe

Florbela Espanca

     Só

     Eu tenho pena da Lua!
     Tanta pena, coitadinha,
     Quando tão branca, na rua
     A vejo chorar sozinha!...

     As rosas nas alamedas,
     E os lilases cor da neve
     Confidenciam de leve
     E lembram arfar de sedas

     Só a triste, coitadinha...
     Tão triste na minha rua
     Lá anda a chorar sozinha ...

     Eu chego então à janela:
     E fico a olhar para a lua...
     E fico a chorar com ela! .

Florbela Espanca

Que importa?...

Eu era a desdenhosa, a indiferente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão,
Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de desejo ou de emoção,
Enquanto as asas loiras da ilusão
Abrem dentro de mim ao sol nascente.

Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte,
Toda ela é riso, e é frescura e graça!

Nela refresca a boca um só instante...
Que importa?... se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes... quando passas?...

Florbela Espanca

     Mistério

     Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
     Dizendo coisas que ninguém entende!
     Da tua cantilena se desprende
     Um sonho de magia e de pecados.

     Dos teus pálidos dedos delicados
     Uma alada canção palpita e ascende,
     Frases que a nossa boca não aprende,
     Murmúrios por caminhos desolados.

     Pelo meu rosto branco, sempre frio,
     Fazes passar o lúgubre arrepio
     Das sensações estranhas, dolorosas…

     Talvez um dia entenda o teu mistério…
     Quando, inerte, na paz do cemitério,
     O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca

      FANATISMO

      Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
     Meus olhos andam cegos de te ver !
     Não és sequer a razão do meu viver,
     Pois que tu és já toda a minha vida !

     Não vejo nada assim enlouquecida ...
     Passo no mundo, meu Amor, a ler
     No misterioso livro do teu ser
     A mesma história tantas vezes lida !

     "Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
     Quando me dizem isto, toda a graça
     Duma boca divina fala em mim !

     E, olhos postos em ti, digo de rastros :
     "Ah !  Podem voar mundos, morrer astros,
     Que tu és como Deus :  Princípio e Fim

Florbela Espanca

Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a Árvore tosca e tensa
Que ri do mundo vão e até da morte!
Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

 

Florbela Espanca

A MORTE

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte, dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me às asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!