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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Luis Vaz de Camões

Aquela que, de pura castidade

 

Aquela que, de pura castidade,
de si mesma tomou cruel vingança
por üa breve e súbita mudança
contrária à sua honra e qualidade,


venceu à fermosura a honestidade,
venceu no fim da vida a esperança,
por que ficasse viva tal lembrança,
tal amor, tanta fé, tanta verdade.


De si, da gente e do mundo esquecida,
feriu com duro ferro o brando peito,
banhando em sangue a força do tirano.


Estranha ousadia! estranho feito!
Que, dando breve morte ao corpo humano,
tenha sua memória larga vida!

Luis Vaz de Camões

Amor, que o gesto humano n' alma escreve

 

Amor, que o gesto humano n' alma escreve,
vivas faíscas me mostrou um dia,
donde um puro cristal se derretia
por entre vivas rosas e alva neve.


A vista, que em si mesma não se atreve,
por se certificar do que ali via,
foi convertida em fonte, que fazia
a dor ao sofrimento doce e leve.


Jura Amor que brandura de vontade
causa o primeiro efeito; o pensamento
endoudece, se cuida que é verdade.


Olhai como Amor gera num momento,
de lágrimas de honesta piedade,
lágrimas de imortal contentamento.

Luis Vaz de Camões

Apartava-se Nise de Montano

 

Apartava-se Nise de Montano,
em cuja alma partindo-se ficava;
que o pastor na memória a debuxava,
por poder sustentar-se deste engano.


Pelas praias do índico Oceano
sobre o curvo cajado se encostava,
e os olhos pelas águas alongava,
que pouco se doíam de seu dano.


«Pois com tamanha mágoa e saudade
— dezia – quis deixar-me a que eu adoro,
por testemunhas tomo Céu e estrelas.


Mas se em vós, ondas, mora piedade,
levai também as lágrimas que choro,
pois assi me levais a causa delas!»

Luis Vaz de Camões

Aquela fera humana que enriquece

 

Aquela fera humana que enriquece
sua presuntuosa tirania
destas minhas entranhas, onde cria
Amor um mal que falta quando crece;


se nela o Céu mostrou – como parece -
quanto mostrar ao mundo pretendia,
porque de minha vida se injuria?
Porque de minha morte se enobrece?


Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
Senhora, com vencer-me e cativar-me:
fazei disto no mundo larga história.


Que, por mais que vos veja maltratar-me,
já me fico logrando desta glória
de ver que tendes tanta de matar-me.

Luis Vaz de Camões

Apolo e as nove Musas, discantando

 

Apolo e as nove Musas, discantando
com a dourada lira, me influíam
na suave harmonia que faziam,
quando tomei a pena, começando:


«Ditoso seja o dia e hora, quando
tão delicados olhos me feriam!
Ditosos os sentidos que sentiam
estar-se em seu desejo traspassando»...


Assi cantava, quando Amor virou
a roda à esperança, que corrria
tão ligeira que quase era invisível.


Converteu-se-me em noite o claro dia;
e, se algüa esperança me ficou,
será de maior mal, se for possível.

Luis Vaz de Camões

Aqueles claros olhos que chorando

 

Aqueles claros olhos que chorando
ficavam, quando deles me partia,
agora que farão? Quem mo diria?
Se porventura estarão em mim cuidando?


Se terão na memória, como ou quando
deles me vim tão longe de alegria?
Ou se estarão aquele alegre dia,
que torne a vê-los, na alma figurando?


Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão co as aves e cos ventos?


Oh! bem-aventurados fingimentos
que, nesta ausência, tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!

Luis Vaz de Camões

Aquela triste e leda madrugada

 

Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.


Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se dúa outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.


Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas
Se acrescentaram em grande e largo rio.


Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Luis Vaz de Camões

Alma minha gentil, que te partiste

 

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luis Vaz de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver,

 

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.


É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.


Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luis Vaz de Camões

Ah, minha Dinamene assi deixaste

Ah, minha Dinamene assi deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah, Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!


Como já para sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?


Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!


Ó mar! Ó céu! Ó minha escura sorte!
Qual pena sentirei, que valha tanto,
Que ainda tenho por pouco o viver triste?

Luis Vaz de Camões

Alegres campos, verdes arvoredos,

Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos;


Silvestres montes, ásperos penedos,
Compostos em concerto desigual,
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.


E, pois me já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas,
Nem águas que correndo alegres vêm.


Semearei em vós lembranças tristes,
Regando-vos com lágrimas saudosas,
E nascerão saudades de meu bem.

Luis Vaz de Camões

Alma gentil, que à firme Eternidade

 

Alma gentil, que à firme Eternidade
subiste clara e valerosamente,
cá durará de ti perpetuamente
a fama, a glória, o nome e a saudade.


Não sei se é mor espanto em tal idade
deixar de teu valor inveja à gente,
se um peito de diamante ou de serpente
fazeres que se mova a piedade.


Invejosas da tua acho mil sortes,
e a minha mais que todas invejosa,
pois ao teu mal o meu tanto igualaste.


Oh! ditoso morrer! sorte ditosa!
Pois o que não se alcança com mil sortes,
tu com üa só morte o alcançaste!

Luis Vaz de Camões

Amor, co'a esperança já perdida,

 

Amor, co'a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.


Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar-me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.


Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto o quis aquela que eu adoro:


nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda não estás de mim vingado,
contenta-te co'as lágrimas que choro.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Luis Vaz de Camões

A ti, Senhor, a quem as sacras Musas

 

A ti, Senhor, a quem as sacras Musas
nutrem e cibam de poção divina
(não as da fonte Délia cabalina,
que são Medeias, Circes e Medusas,


mas aquelas, em cujo peito, infusas
as leis estão, que a lei da Graça ensina,
beninas no amor e na doutrina
e não soberbas, cegas e confusas),


este pequeno parto, produzido
de meu saber e fraco entendimento,
üa vontade grande te oferece.


Se for de ti notado de atrevido,
daqui peço perdão do atrevimento,
o qual esta vontade te merece.

Luis Vaz de Camões

À sepultura de D. Fernando de Castro

Debaixo desta pedra está metido,
das sanguinosas armas descansado,
o capitão ilustre, assinalado,
Dom Fernando de Castro esclarecido.


Por todo o Oriente tão temido,
e da enveja da fama tão cantado,
este, pois, só agora sepultado,
está aqui já em terra convertido.


Alegra-te, ó guerreira Lusitânia,
por este Viriato que criaste;
e chora-o, perdido, eternamente.
Exemplo toma nisto de Dardânia;


que, se a Roma co ele aniquilaste,
nem por isso Cartago está contente

Luis Vaz de Camões

À sepultura del-Rei D. João III

 

«Quem jaz no grão sepulcro, que descreve
tão ilustres sinais no forte escudo?»
«Ninguém; que nisso, enfim, se torna tudo;
mas foi quem tudo pôde e tudo teve».


«Foi Rei?» «Fez tudo quanto a Rei se deve;
pôs na guerra e na paz devido estudo;
mas quão pesado foi ao Mouro rudo
tanto lhe seja agora a terra leve».


«Alexandre será?» «Ninguém se engane;
que sustentar mais que adquirir se estima».
«Será Adriano, grão senhor do mundo?»


«Mais observante foi da Lei de cima».
«É Numa?» «Numa, não; mas é Joane
de Portugal terceiro, sem segundo».

Luis Vaz de Camões

A violeta mais bela que amanhece

 

A violeta mais bela que amanhece
no vale, por esmalte da verdura,
com seu pálido lustre e fermosura,
por mais bela, Violante, te obedece.


Perguntas-me porquê? Porque aparece
seu nome em ti e sua cor mais pura;
e estudar em [teu] rosto só procura
tudo quanto em beldade mais florece.


Oh! luminosa flor, oh! Sol mais claro,
único roubador de meu sentido,
não permitas que Amor me seja avaro!


Oh! penetrante seta de Cupido,
que queres? Que te peça, por reparo,
ser, neste vale, Eneias desta Dido?

Luis Vaz de Camões

Ah! imiga cruel, que apartamento

 

Ah! imiga cruel, que apartamento
é este que fazeis da pátria terra?
Quem do paterno ninho vos desterrra,
glória dos olhos, bem do pensamento?


Is tentar da Fortuna o movimento
e dos ventos cruéis a dura guerra?
Ver brenhas de água, e o mar feito em serra,
levantado de um vento e de outro vento?


Mas já que vos partis, sem vos partirdes,
parta convosco o Céu tanta ventura
que seja mor que aquela que esperardes.


E só nesta verdade ide segura:
que ficam mais saudades, com partirdes,
do que breves desejos de chegardes.

Luis Vaz de Camões

Ah, Fortuna cruel! Ah, duros Fados

Ah, Fortuna cruel! Ah, duros Fados!
Quão asinha em meu dano vos mudastes!
Passou o tempo que me descansastes;
Agora descansais com meus cuidados.


Deixastes-me sentir os bens passados,
Para mor dor da dor que me ordenastes;
Então núa hora juntos mos levastes,
Deixando em seu lugar males dobrados.


Ah! quanto milhor fora não vos ver,
Gostos, que assi passais tão de corrida
Que fico duvidoso se vos vi.


Sem vós já me não fica que perder,
Senão se for esta cansada vida
Que, por mor perda minha, não perdi.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Luis Vaz de Camões

À morte de D. António de Noronha

 

Em flor vos arrancou, de então crescida
— Ah! Senhor dom António! — a dura sorte,
donde fazendo andava o braço forte
a fama dos Antigos esquecida.


Üa só razão tenho conhecida
com que tamanha mágoa se conforte:
que pois no mundo havia honrada morte,
que não podíeis ter mais larga a vida.


Se meus humildes versos podem tanto
que co desejo meu se iguale a arte,
especial matéria me sereis.


E, celebrado em triste e longo canto,
se morrestes nas mãos do fero Marte,
na memória das gentes vivereis.