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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Pedro António Correia Garção

SONETO
1

Cheios de espessa névoa os horizontes,
Espantosas voragens vem saindo!
Foi-se o Sol entre as nuvens encobrindo,
Voltando para o mar os quatro Etontes

Caiu a grossa chuva pelos montes,
Os incautos pastores aturdindo;
E engrossados os rios vão cobrindo
Com embate feroz as curvas pontes

Com medonho estampido, navorosos.
Os longos ecos dos trovões soando.
A rezar nos pusemos temerosos.

Parou a chuva; correm sussurrando
Os torcidos regatos vagarosos;
Não me atrevo a sair, fico jogando.

2

Ao som dos duros ferros que arrastava,
A lira de ouro Corydon tangia:
De Márcia o doce nome repetia,
Mas no meio do canto soluçava.

No rosto macerado, que enfiava,
O lagrimoso pranto reluzia,
E nos olhos, que aos altos céus erguia,
O pensamento intrépido voava.

Não se assombra de ventos insofridos,
Nem com ousado lenho arar intenta
O pólo do futuro nebuloso;

Menos chora terrenos bens perdidos.
De pouco um peito grande se contenta:
Antes quer ser honrado que ditoso.

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