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sábado, 7 de junho de 2008

João Braz

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5 comentários:

AlmaLusa disse...

A que me trouxe o Amor

A que me trouxe o Amor veio à tardinha,
Com sol nos olhos e com mel na boca,
Em gestos coleantes de gatinha,
Aninhar-se em meus braços p`ra ser minha
Um breve instante, numa entrega louca!

As minhas mãos morenas, enlaçei-as
Nas suas brancas mãos---lírios em flor;
Dei-lh`as vazias, tristes e plebeias,
E elas ficaram milionárias, cheias
Da alma daquela que me trouxe o Amor...

A que me trouxe o Amor veio de mansinho,
Com graças de menina e de mulher,
Junto ao meu peito procurar carinho,
Pomba cansada que regressa ao ninho
Para suavemente adormecer.

João Braz

AlmaLusa disse...

Eu Poeta me Confesso...

l

Porque vim no Algarve à luz do dia,
Menino me criei perto do mar
E, com ele, aprendi a rebeldia
Das ondas altaneiras a lutar...

Não sei se nas artérias eu teria
Sangue de avós heróicos a pulsar,
Ou se era de Poetas que trazia
Uma herança de sonho em meu olhar...

O certo é que intentei, louco e audaz,
A conquista da vida ( era rapaz,
Tinha por mim a esp`rança...), e na memória

Vejo-me ainda, coração ao alto
Como um pendão real, ir ao assalto
Com a plena certeza da vitória!

ll

E, porque com o mar tinha aprendido
O modo de lutar, rude e constante,
Ante a vida me achei ora caído,
Ora dominador e arrogante.

Agora, em agonias de vencido;
Logo a erguer-me, altivo e triunfante,
À minha luta dei maior sentido:
Fui mais alto, e mais fundo, a cada instante!

Lição eterna que do mar nos vem,
Entendia-a depois, como ninguém,
Ao ver que me era inútil a batalha...


Onda que sobe e desce, a vida corre.
Um sonho, mal que nasce logo morre,
E nada muda o que o destino talha!

III

Mordi o pó, quebrada a minha lança,
E meu pendão real feito em pedaços!
Herói falhado, abandonou-me a esp`rança
Que em tempos idos me estendera os braços...

Meus olhos tão alegres em criança,
Tinham só amarguras e cansaços
Em vez do sonho que me fora herança
De avós remotos--Césares ou Tassos...

Qual mísero mendigo de longada
Batendo às portas, sem que dêem nada
À mão que leva em súplica, estendida,

Olhei as minhas pobres mãos morenas,
E vi que nelas me ficara, apenas,
Um jeito de pedir esmola à vida...

IV

Com muros de renúncia edifiquei
Um castelo de sombra e soledade...
E nele emparedado, me tornei
Castelão do desgosto e da saudade...

Dos restos de mim próprio me fiz rei,
--Rei triste sem orgulho e sem vaidade;
E foi o esquecimento a minha lei,
E foi a solidão minha vontade.

Castelo sem janelas e sem portas,
Por ele entrava o vento a horas mortas,
Para me consolar, piedosamente;

Depois, com dó de mim, ia-se embora
Correr o mundo pela noite fora,
Gritando versos meus a toda a gente!...

V

Mas, certo dia, as tuas mãos, nas minhas,
Num milagre sem par, vieram pôr
A ternura suavíssima que tinhas
Guardada p`ra me dar, ó meu Amor!

Não quiz saber quem eras, se provinhas
De algum reino d`aquém ou d`além dor,
Pois mal te vi adivinhei que vinhas
Na graça e com a benção do Senhor.

Desde que tu vieste, e que te tenho
Junto de mim, o meu castelo estranho
Até deixou de ser triste e sombrio...

E o meu amigo vento, assobiando
Por esse mundo, agora anda cantando
Que eu já vivo outra vez, que já me rio!

VI

Da minha` alma varri o desalento,
E já o seu poder é mais que humano!
--- Asa que torna ao céu, em movimento,
Nau que afronta de novo o oceano!

A vida, agora, um redobrado alento
Me anima e leva a conquistá-la, ufano,
Elmo a brilhar ao sol, bandeira ao vento,
Como um antigo imperador romano!

Já no meu peito o orgulho se faz chama!
Sou algarvio, descendo da moirama,
Tenho o perfil trigueiro, a fronte nobre...

E tenho ainda um grande Amor!--- o teu,
Esta riqueza que o Senhor me deu
Para que nunca mais eu fosse pobre!

VII

Eis-me tentando a íngreme escalada
Que o meu anseio de mais além procura!
Meus sonhos, p`lo azul em revoada
São dispersões de mim buscando altura!

Sinto a alma liberta, arrebatada,
E flui da minha boca a voz mais pura
Num canto que desperta a madrugada,
E que rasga o pavor da noite escura!

Para além do real, sinto-me o verso
Que faltava ao poema do universo,
O acento final, o último grito...

Espírito sem forma e sem idade,
Sopro divino--- sou Eternidade!
Clarão de Estrela--- atinjo o Infinito!

João Braz

AlmaLusa disse...

A VIDA QUE VENHA

Vai por entre a gente
Minh`alma perdida,
E a fome que sente
É a fome da vida.

Que a vida não tenha
Senão mal e dor,
A vida que venha
E seja o que for!

Mais vale ser barco
P`ra raiva do mar,
Que à tona dum charco
Ser flor a boiar.

Mais vale ir ao fundo
Das negras funduras,
Que achar neste mundo
Só rotas seguras!

Me façam Jesus
Na dor e na Glória!
Dos braços da cruz
Me venha a vitória!

Qualquer minha empresa
Que eu veja falir,
Me mostre a beleza
De Alcácer-Quibir...

Que a todo o momento
Eu sinta o açoite
Do vento, em lamento
Nas trevas da noite!

Assim preparado
P`ra mal e p`ra bem,
Espero cansado
E a vida não vem...

Por isso, entre a gente,
Minh`alma perdida
Mais sofre, mais sente
A fome da vida!
Que a vida não tenha
Senão mal e dor,
A vida que venha
E seja o que for!

João Braz

AlmaLusa disse...

"...quem teve um dia o prazer de conhecer João Braz de pronto sentiu, perto dele, todos os sortilégios do seu espírito de eleição...
...João Braz--e nisto, em resumo, se diz quanto ele merece--continua, fulgurantemente, a linhagem dos grandes poetas da sua província,que se chamaram João de Deus,João Lúcio,Bernardo de Passos e Candido Guerreiro.
Um mundo-- ou melhor--um cêu aberto de poesia! Tanta que não haverá, de certeza, moça ou mulher do Algarve, e de toda a nossa terra, ou de qualquer outra onde se fale e entenda e sinta a língua portuguesa, que ao ler os versos de João Braz não fique enternecida, perturbada, extasiada, como se ouvisse, numa noite de luar e num jardim em flor,
cantar um rouxinol..."

( In Diário de Notícias )

AlmaLusa disse...

QUADRAS SOLTAS

Alguém que te viu contente,
Rojando sedas, na rua,
Afirmou a muita gente
Que és muito mais linda nua...

Não andas relacionada
Comigo, mas sei quem és...
Já me foste apresentada
Na má língua dos Cafés.

Não ergas com tal desdém
Por mim, o teu lindo olhar,
Se não eu conto a alguém
O que sei, para o baixar...

Nos mastros por onde andei,
O alecrim ardia aos molhos
E no fim, só me queimei
Na fogueira dos teus olhos...

Ó meu amor, não vás tanto
Rezar junto a Santo António...
---Não caia o pobre do Santo
Na tentação do demónio!

Se alguma vez, ao deitar,
Ao luar te mostras nua,
Nunca mais temos luar
A não ser na tua rua...

Nas bocas que sem desejo
Minha boca anda a beijar,
Mato saudades dum beijo
Que a tua não me quiz dar.

João Braz