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terça-feira, 3 de março de 2009

Alberto de Serpa

RECREIO

Na claridade da manhã primaveril,

Ao lado da brancura lavada da escola,

as crianças confraternizam-se com a alegria das aves....

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis

A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,

— Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas...

As meninas dançam de roda e cantam

As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,

Acompanhadas de gestos senhoris e graves.

Os rapazes correm sem tino e travam lutas,

Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,

À vida que vai chegando despercebida e breve...

E a jovem mestra olha todos enlevadamente,

Com um sorriso misterioso nos lábios tristes...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Alberto de Serpa

POEMA III

Como tu embriagas!

Vens, ó Poesia!, ou tumultuosa ou mansa,

Cerras o nosso olhar a estes tempos em chagas,

E canta dentro em nós uma esperança.

És uma irmã que deixa

A fresca mão na nossa testa ardente,

Depois da luta que engrandece a queixa

Que temos sempre contra tanta gente.

És aquela que chega

— Se o tédio em nossas almas se insinua —

Sempre fácil e pronta para a entrega

Mais total e mais nua.

És tu, poesia, quem

— Quando nos prendem boca, mãos e pés —

A coragem raivosa nos mantém,

Ciciando-nos: “Talvez...”

Que bem hajas! Aqui

E em toda a parte, nossos passos guia!

Por cada hora, sejamos mais de ti,

E tu, mais nossa, Poesia!

domingo, 1 de março de 2009

Alberto de Serpa

Mar Morto

A noite caiu sobre o cais, sobre o mar, sobre mim...

                   As ondas fracas, contra o molhe, são vozes calmas de afogados.

                   O luar marca uma estrada clara e macia nas águas,

                   mas os barcos que saem podem procurar mais noite,

                   e com as suas luzes vão pôr mais estrelas além ...

                   O vento foi para outros cais levar o medo,

                   e as mulheres, que vêm dizer adeus e cantar,

                   hoje sabem canções com mais esperança,

                   canções mais fortes que a ressaca,

                   canções sem pausas onde passe uma sombra da morte...

                   Velhos marítimos — a terra é já a sua terra —

                   olham o mar mais distante e têm maior saudade...

                   Pára o rumor duns remos...

                   Não vão mais às estrelas as canções com noite, amor e morte...

                   Penso em todos os que foram e andam no mar,

                   em todos os que ficam e andam no mar também ...

                   E a luz do farol, lá longe, diz talvez...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Alberto de Serpa

Riqueza

Por parques e praças,

Ruas e travessas,

Tu, meu olhar, caças

A vida. E tropeças.

**

Uma gargalhada

Vem dum par contente.

Guarda-a bem guardada,

Mas caminha em frente.

**

Surgem-te sorrisos

Dum e de outro lado.

Não faças juízos

Rápidos. Cuidado!

**

Uma face grave

Nada te revela?

Talvez a dor cave,

Só mais tarde, nela.

**

Num choro, num grito,

Pressentes a dor?

E quedas, aflito.

Seque, por favor!

**

Seque, bem aberto

Para cada canto!

Olha o desconcerto

Que parece tanto!

**

Corre, olhar, em roda!

O que me intimida?

A vida? Só toda

Pode amar-se, a vida.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Alberto de Serpa

 

A UM JOVEM CAMARADA

Meu Camarada moço,
- Lidos os teus poemas,
Apenas posso
Dizer-te que não temas
Dar-lhes o fogo, a morte, o esquecimento.
Se queres a Poesia, vai para ela
Puro, desnudo, de ímpeto violento,
Como para a mulher
Em que parou teu sonho, - se és o seu.
Vai, como ela te quer.
Mas se outra chama inflama o teu amor,
Se outro sonho tão belo te rendeu,
Tem coragem nobre de depor
Os versos que não são teu instrumento.
Toma outras armas mais condizentes.
Não, a Poesia não a violentes!
Deixa os versos ao vento…

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