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quinta-feira, 12 de junho de 2008

José Tolentino Mendonça

 

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes,estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
Durmo no mar ,durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração


de A Que distância Deixaste o Coração(1998)

José Tolentino Mendonça

O fio de um cabelo

Abandono a casa o horto o lugar à mesa
o casaco de que gostava, sobre o leito dobrado
esta verdade quase banal
que toda a vida fui

Não abro a porta quando batem
(às vezes batiam só por engano)
não avalio o balanço das certezas
o que separa uma forma da outra
sempre me escapou

Ontem começava a clarear
o ar frio que vinha dos campos
julguei-o de passagem e afinal
era um segredo que meu corpo
de uma vez por todas contava
ao meu corpo

Mas quando tombei sobre a terra
perdido como o fio de um cabelo
(aqueles que primeiro caem
da cabeça de um rapaz
e por não serem notados
são mais perdidos ainda)
estavas junto de mim

Lançaste ao fogo cidades
afogaste os exércitos
no vermelho mar da sua ira
hipotecaste terras tão preciosas
para estares junto de mim




De Igual Para Igual

José Tolentino Mendonça

A presença mais pura


Nada no mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
“a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?”
a altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um “não esquecer” fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
“a que distancia deixaste
o coração?”


de A Que distância Deixaste o Coração(1998)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

José Tolentino Mendonça

A direcção do sangue

Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real
A mancha ténue dos arbustos
indica o caminho para o regresso
que nunca há
o mar ficou de repente perto
sobre esta praia travámos lutas
para as quais só muito depois
encontramos um motivo
era à pedrada que nos defendíamos
do riso mais inocente
ou de um amor
Mas aquilo que nunca esquecemos
deixa de pertencer-nos e nem notamos
Estamos sós com a noite
para salvar um coração

José Tolentino Mendonça

Monte perdido

Todo o verão aqueles três
se passearam por um território de montanhas
Nada de subidas
nenhum especial plano ou demora
No cimo intransponível das paredes
o mundo era solitário e majestoso
como a última enguia de um lago

As pessoas que conheciam esperavam ordeiras
pela grande revelação nas capitais
ou estacionavam junto do mar
com olhos muito sonolentos
vagamente deprimidas por o mar ser aquilo
Eles nesse verão tinham as montanhas
um frio que nunca antes sentiram
pintava-lhes rodas vermelhas no rosto
Há muitos anos esse sinal quase atraiçoou
diante dos outros
a primeira mentira e o primeiro amor

No povoado atiram ao ar uma moeda
e eis por instantes a nossa coroa
o nosso reino tem de extensão
o braço de um girassol
mas as montanhas
as montanhas deslumbraram
todo esse verão em que partiram
em busca de uma forma inabalável

José Tolentino Mendonça

Quatro tiros no coração

Certas manhãs chegava
esmagado pela luz
longo, frívolo, ofensivo
qualquer gesto aludia
a uma espécie de temor
a tristeza daqueles que pertencem
a lugar nenhum


Vivia tudo num instante
a solidão, os rancores
as alegrias dos outros
o silêncio do outono


Nunca o amor tocara o seu corpo
com a intensidade do medo
tornou-se parte de um rio
nem perto, nem longe
da palavra justa


Ele só pedia
"não me digam nada"

José Tolentino Mendonça

As casas

As casas habitadas são belas 
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa

José Tolentino Mendonça

Play for today

A qualquer hora, a meio do que dispõe
um sedimento, uma impressão
distanciava-se, cambaleante e aflito
inseparável de alguma coisa que não se via
mas talvez exista
nos desertos que se prolongam
nos nomes que nos pertencem demasiado e esquecemos
em certas deflagrações
que por muitos dias
nos afugentam de casa, do trabalho ou do sono

Quando depois voltava
prendia o barco no pequeno ancoradouro
ainda despenhado das varas de um relâmpago
quase sem palavras
apenas um ser vivo sobre a terra



in De Igual Para Igual

José Tolentino Mendonça

Os amigos

Esses estranhos que nós amamos 
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor




 
De Igual Para Igual

José Tolentino Mendonça

Reis Magos

Uma mesa de plástico, branca 
junto da tarde que morre
e renasce por pequenas paixões
de repente estávamos sozinhos
as ilhas muito inacessíveis
agora que escureceu
o menor desejo teria um sentido delicado
os olhos velozes de um gato
viam coisas belas
lado a lado com os homens
pareciam quase não ter sofrido

a mesa estava encostada às janelas do café
e nós de forma desolada
ignorados, aturdidos, de passagem
não muito mais

procuro desse facto uma versão
que me não conduza à inconfidência

era uma mesa lisa, branca
uma razão soletrava ao acaso
a medida soberana do incerto

olhos velozes de um gato os teus
olhos





BALDIOS - 1999

terça-feira, 10 de junho de 2008

José Tolentino Mendonça

A mão, o muro, o mundo


A mão preferida pelo silêncio
evoca sobre o muro
um alfabeto sem vincos
não é mão é uma luz que sobe pela colina
um atalho entre as estevas
um incêndio na mata
a rapariga louca,grita contra a noite
na enseada
A mão preferida pelo silêncio
folheia o livro dos incêndios
torna-se irremediavelmente suja
sobre o muro traça os vincos
os primeiros versos
A mão preferida pelo silêncio
não conhece repouso
quando atravessa a noite da enseada
é a mão trémula
pobre
assinalada pela escassez extrema dos nomes


de Longe Não Sabia(1997)

José Tolentino Mendonça

A infância de Herberto Helder


No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra


de Os Dias Contados(1990)

José Tolentino Mendonça

A mulher desconhecida


para Maria Matias,minha avó
É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome
Eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece
e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor.


de Baldios(1999)

José Tolentino Mendonça

Uma floresta pintada por Ilda David

De instante para instante
identificam-se lacunas, espaços irremediáveis
distâncias:
é apenas uma parte
a experiência que fazemos
do que seja o tempo

Nesse descoberto que separa
um instante de outro
estendes o teu próprio corpo
nenhuma outra maneira
guardou o perfume da neve
sobre os muros
como se não fosse.