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quarta-feira, 16 de abril de 2008

Sara F. Costa

rasgo a fala pelas suas fendas.
bebo o fumo tardio de um domingo
menos espesso que os outros.
procuro uma noite comprida
onde possa afogar todas as sombras
e escaldar o inconsciente,
para lá da dolorosa superfície
das coisas.
as horas tremem.
mas estou parada
e o eixo à volta do qual
se inflama a rotação da linguagem
é demasiado curto.


In "Nas entranhas do mar"

Sara F. Costa

 

o esquecimento são os ossos
cobertos de lodo
e as mortes ateadas
dentro das fotografias.


quando a luz sangra
ao longo dos espelhos
e a garganta permanece fechada dentro do Outono,
é como se as lembranças abrissem a casa
e a água rasgasse toda a lucidez.

In Uma Devastação Inteligente

Sara F. Costa

 
o som

o som dos espelhos
alaga as ruas
que se arrastam pelo corpo
entre o suor ácido das formas.
chove
e vejo a língua do relógio
misturar-se com a lama.
a cidade arde
e a minha ressaca
é uma lareira
a pingar pelos dedos.


in Uma Devastação Inteligente