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terça-feira, 29 de abril de 2008

Pedro Laureano Mendonça da Silveira

MEMÓRIAS


À memória de António Dacosta
que, pintor e poeta,
sabia de sereias e tritões
como meu avô José Laureano


1
Perdi os nomes da inocência.
A ignorância,
continuo a aprendê-la.


2
Tinem campainhas
no azul novo da manhã.
Vacas a caminho das relvas.


3
A mesa está posta. Come
como quem beija
o pão duro da vida.

Pedro Laureano Mendonça da Silveira

OUTRA VEZ PORTO SANTO


A terra tem sede;
nuvens passam e vão-se.


A céu, azul de lado a lado,
e o sol, vermelho-lume no poente.


Virá a noite,
hão-de brilhar estrelas...
E a terra seca, sonhando:
- É a chuva que vem?


Um dragoeiro, ouvindo-a,
não diz nada.

Pedro Laureano Mendonça da Silveira

A agitação dos dias de baleia!
Marinheiros correndo para o porto.
Iguala o Universo num grão de areia
e o Nada é um doutor de olhar absorto.


A bomba que rebenta na vigia
sacode o ar num sobressalto de asas.
A vida igual de sempre dir-se-ia
outra na lida habitual das casas.


Mas à agitação se segue logo
uma ansiedade vã sobre a paisagem:
em cada coração crepita um fogo
à espera apenas de uma leve aragem.


Depois, qualquer sinal no horizonte
parece um barco – e uma baleia morta?
Um binóculo espreita, ali defronte,
E um vulto de mulher assoma à porta.


Inquieto, alguém pergunta: - Que é? Que foi?
Um coração lento cruza a dúbia praça;
reflecte a placidez do boi
a morna placidez da tarde baça.


Mas não há uma vela pelo mar!
As horas passam, moles, arrastadas...
A noite vem... Os botes sem chegar!
E um choro enche as casas desoladas.

Pedro Laureano Mendonça da Silveira

ELEGIA, QUASE


Defronte da minha janela
o vento agora embala
as flores lilases dos jacarandás.


A tarde cai, cansada,
e não sei porquê
de repente lembrei-me
que foi numa tarde como esta
sob uma brisa morna
que nos dissemos adeus.


No entanto não recordo
se havia flores ou simplesmente
era a tarde, sem paisagem nenhuma.


O que ainda sei é o teu vulto
emoldurado no sol -
e depois a casa
onde já não vive ninguém.


Tantas casas desertas
e tantos rostos para sempre inencontráveis.