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domingo, 30 de novembro de 2008

Fátima Maldonado

“Campo de Refugiados”


“Alguns não os víamos há anos
faziam parte da nossa mais salubre
juventude
no trabalho ainda havia escape
no amor ainda havia perigo
banquetes celebravam extorsões
compromissos sagrados aluíam
amores mais indeléveis
sucumbiam aos uivos
nas coutadas
frente à horda não havia defesa
aquele vírus jovem não cedia
pisava ameaças ignorava apelos
qualquer moderação nos parecia funesta.
(…)Os poucos resistentes engordaram
sofrem do coração bebem cerveja
têm a pasta surrada de desgostos
outros alistam-se na cave do comércio
mirram no pó as caudas abanadas
à cintura as facas do açougue,
sabujos escrevem coisas irrisórias
enquanto a terra se torna combustível.”


“Vida Extenuada” in 2008

sábado, 29 de novembro de 2008

Fátima Maldonado

 

CERIMÓNIA FUNESTA

O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.

 

in "Vida Extenuada" & etc, 2008

Fátima Maldonado

Quiseste-me e depois foste desmoronando
glóbulo a glóbulo
alteraste sistemas rebentando artérias
devassaste lugares
deixando vestígios de razão
como sobram nas neves mais eternas
as latas de cerveja os restos do fiambre
em papéis suados de gordura
é urgente fuzilar inúteis
o que invade e destrói o nosso próprio concentrado
campo
lógicas ordenam e revelam
organizam as cinzas do que não se mede
atrevem-se a manchar
sítios remotos
o que de cada ser faz parte incerta
na deriva real da procura
tentam riscar sagrados hipotálamos
com o ponteiro dos factos
a geometria a que te condenaste
vai encerrando os dados que precisas
para jogos de risco, outras encantações
e sempre mais couraças
inerme comandado por regras brutas
como escamas de aço
suturas bolas de natal
sem perceber que pouco tempo existem
irisadas subitamente estalam.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Fátima Maldonado

 

A Adoração dos Magos

Aquela noite a três

foi como desenhar a maçarico

numa chapa de ferro

um vento fóssil, um vítreo monograma,

o rasto ao exceder o voo de uma carriça

cativo flutua no vidro de uma jarra.

Suspensos percorriam na polpa da vertigem

léguas sobre o abismo.

Pendentes do zinco da manhã

à espera do início

do seguinte espectáculo

dispersaram o sémen

nas chaminés da noite leprosa.

Nos terraços da luta percorreram

as danças mais funestas da ternura.

Num combinar astuto de referências

abriram-se os portais

e despediram galopes penitentes

os animais libertos

das tecidas mansões.

O unicórnio branco depôs sua cabeça

nos braços da senhora,

compadecida dama,

e lhe tocou fiando suas lãs

entre as unhas crivadas por metralha.

Sinto-lhes o assédio,

em cada joelho poisam

um queixo armadilhado,

a barba já cresceu desde o jantar.

«É a adoração dos magos» - murmuras tu –

fincando na ravina os dedos imanados

enquanto o tronco investe

a pele percorrida por venosas nascentes.

Olho por sobre um ombro

e surpreendo a treva

ofendida esgueirar-se

entre os dedos da porta.

O noctívago galgo

devora a escuridão às cegas no recinto.

Em breve a luz envolve

de opalinas unções as cabeleiras.

Iminentes desenham-se as saídas,

o croissant no prato, o garoto no copo,

o revestir a pele doutros fatos

a tragédia jazente nos horários.

Aquela noite a três foi sem remédio.

 

Fátima Maldonado

Os Presságios

Lisboa, Editorial Presença, 1983

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Fátima Maldonado

 

FUNDO DE DESEMPREGO

Uma borboleta, um colar de coral
o rapaz não quer saber de competência.
Está por agora aqui
amanhã pode sentar-se noutro lado
não tem opinião sobre coisa nenhuma
e nada nem ninguém o desconvocam
do seu concílio com a indiferença.
Veio de Colónia e na volta é semelhante
suprimiu hamburguers
com pescadores ao lado.
O resvale da tarde sobre rochas
não lhe prega na alma
precipícios.
Um ocaso onde há melancolia
desperta-lhe a contra-gosto
recessões
e perde tempo a descobrir ao sol
a loura rapariga inanimada
enquanto apalpa
na bolsinha a erva.
No outro dia é com resignação
que se saúdam
e a tarde nos contunde
mineral.