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quinta-feira, 17 de abril de 2008

Roberto de Mesquita

AR DE INVERNO


Aves do mar que em ronda lenta
Giram no ar, à ventania,
Gritam na tarde macilenta
A sua bárbara alegria.


Incha lá fora a vaga escura,
Uiva o nordeste aflitamente.
Que mágoa anónima satura
Este ar de Inverno, este ar doente?


Alma que vogas a gemer
Na tarde anémica, de vento,
Como se infiltra no meu ser
O teu esparso sofrimento!


Que viuvez desamparada
Chora no ar, no vento frio
Por esta tarde macerada
Em que a esp’rança se esvaiu!”..

Roberto de Mesquita

A velha casa, onde eu morei outrora
e que há muito está desabitada,
silenciosa envolveu-me, ao ver-me agora,
num triste olhar de amante abandonada.

Com que amargor no íntimo lhe chora
uma alma sensitiva e ignorada,
que não tem voz para queixar-se, embora
se veja só, de todos olvidada!

Casa deserta e fria, que envelheces
ao desamparo sem uma afeição,
bem sinto que me vês, que me conheces

e relembras os dias que lá vão…
Eu esqueci-te, amiga, e tu pareces
toda magoada dessa ingratidão.

Roberto de Mesquita

IDÍDIO

I

Serpeava num vale a estrada tortuosa
Onde íamos os dois bebendo a tarde olente.
Paisagem fresca após a quadra pluviosa,
Um céu de intenso anil com fulvos tons de poente.

Vejo-te inda parar, sorvendo, graciosa,
Os eflúvios do campo, inebriadamente.
Nessa tarde de Março, azul e carinhosa,
A natureza tinha um ar convalescente…

Na memória arquivei todos os pormenores
Desse morrer do dia – a voz dos lavradores
Recolhendo o seu gado, a brisa que se erguera

Trazendo emanações de laranjal florido,
E um melro que embalava o campo adormecido
Na sua doce voz cheia de Primavera…

II

Entrámos já de noite na cidade.
Silêncio, estrelas, uma aragem viva…
Impressionava-me a noite evocativa
De não sei que bafejo de saudade…

Ladravam cães ao longe. Fugitiva,
Uma estrela riscou a imensidade.
Através da nocturna soledade
Tu ias a meu lado pensativa…

Ermas as ruas não rodava um carro.
Eu mergulhara num sonhar bizarro.
Fumava um boticário à sua porta,

Olhando o céu aveludado e belo,
E um clarim, a silêncio, no castelo,
Tristemente apelou na noite morna…

III

Com ar já fatigado e sonolento
No meu braço tu ias apoiada.
Iluminava agora o firmamento
Um minguante ambarino de balada.

Numa viela estreita e mal calçada,
Onde íamos seguindo em passo lento,
Divisava-se a frente enxovalhada
Dum vasto casarão que foi convento.

Que trigueiro e soturno! A olhá-la eu paro.
Tem um ar de viuvez e desamparo
Essa fachada esquálida e vetusta…

E em face desses muros denegridos
Dir-se-ia saturar-se a noite augusta
Dum remember de tempos abolidos…

IV

Sentámo-nos num largo, ao luar divino.
Eu fitava no céu pupilas sonhadoras.
No profundo silêncio um clamoroso sino
Com solene vagar bateu então dez horas.

Depois de acompanhar-te ao ninho onde tu moras,
Erguido num jardim virente e pequenino,
Fiquei a relembrar o teu corpo airoso e fino
E esses olhos de moura, escuros como amoras.

Por longo tempo ainda eu divaguei absorto
Entre prédios sem luz, dum ar soturno e morto,
Ouvindo ao longe o mar num salmo sonolento.

E ao mórbido luar, que ao sono nos impulsa,
A minh’alma bebia essa saudade avulsa
Que dimana da noite assim como o relento…