POEMAS DE GIL VICENTE NOS SEGUINTES SITES:
sábado, 8 de novembro de 2008
Gil Vicente
VILANCETE IX
Era ainda o mês de abril,
de maio antes um dia,
quando lírios e rosas
mostram mais sua alegria;
pela noite mais serene
que fazer o céu podia,
quando Flérida, a formosa
infanta, já se partia,
ela na horta do pai
para as árvores dizia:
"Ficai, adeus, minhas flores,
em que glória ver soía.
Vou-me a terras estrangeiras,
a que ventura me guia.
Se meu pai me for buscar,
que grande bem me queria,
digam-lhe que amor me leva
e que eu sem culpa o seguia;
que tanto por mim porfiava
que venceu sua porfia.
Triste, não sei aonmde vou,
e a mim ninguém o dizia!"
Eis que fala Dom Duardos:
"Não choreis, minha alegria,
que nos reinos da Inglaterra
mais claras águas havia,
e mais formosos jardins,
e vossos, senhora, um dia:
tereis trezentas donzelas
de alta genealogia,
de prata são os palácios
para vossa senhoria:
de esmeraldas e jacintos,
de ouro fino da Turquia
com letreiros esmaltados
que minha vida à porfia
vão contando, e as vivas cores
que vós me destes no dia
em que com Primaleão
fortemente combatia:
senhora, vós me matastes
que eu a ele não temia".
Os seus prantos consolava
Flérida, que tudo ouvia;
foram-se então às galeras
que Dom Duardos havia:
por cinqüenta se contavam,
todas vão em companhia.
Ao som de seus doces remos
a princisa se adormia
nos braços de Dom Duardos,
que bem já lhe pertencia.
Saibam quantos são nascidos
que sentença eu lhes diria:
que contra a morte e o amor
não há quem tenha valia.
Gil Vicente
Visitas Noturnas
É onírica,
é pesadelo de Goya
a desejada visita
Desde um abraço sonhado
desde meu calor epidérmico
deste teu forte rubor
Enfim!
vem o sono da razão
despertar-nos a carne
São dois o mesmo desejo,
é de ambos o mesmo sonho
ficando dentro de um quadro
A visita,
que se dorme sem querer,
querida,
detém-se na composição, estrutura
que então se perpetua e
fascina
pra não se concretizar.
Mas instalam-se na pele
minha excitada impressão digital
tua impressionada excitação genital
que se acabam
em águas mornas
quando nos acordamos
eu em minha cama
tu na tua
Nessa líquida fronteira
entre sono e vigília
percebemos, ainda quente,
pergunta perfumada no ar:
quem visitou quem?
[a partir de “A Visita”, nanquim sobre papel de Gil Vicente, 1998]
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Gil Vicente
BRANCA ESTAIS E COLORADA
Branca estais e colorada
Virgem sagrada
Em Belém, vila de amor
da rosa nasceu a flor
Virgem sagrada!
Em Belém, vila de amor
nasceu a rosa do rosal,
Virgem sagrada!
Da rosa nasceu a flor
para nosso Salvador:
Virgem sagrada!
Nasceu a rosa do rosal,
Deus e homem natural:
Virgem sagrada!
Gil Vicente
Laranja-cravo e Bergamota
Sob sol a pino
sonho meus atardeceres
em todos os seus
azuis
longuíssimos, lânguidos,
loiros pores-do-sol
de Porto Alegre
em Pernambuco
Nessa salada de laranja-cravo
com bergamota
perfumo minhas mãos,
molho minhas axilas
O que me acontece a mim
é um maracatu espontâneo:
ricamente enfeitada,
a calunga dança,
muy solita,
La cumparsita
Gil Vicente
Vilancete
Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
também das verduras.
Adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas.
Ribeiras crescidas
louvai nas alturas
Deus das criaturas.
Louvai arvoredos
de fruto prezado,
digam os penedos:
Deus seja louvado!
E louve meu gado,
nestas verduras,
o Deus das alturas.




