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sexta-feira, 18 de abril de 2008

Eugénio de Andrade

Amor


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade

O Silêncio


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,


e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,


quando azuis irrompem
os teus olhos


e procuram
nos meus navegação segura,


é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,


pelo silêncio fascinadas

Eugénio de Andrade

Os Pêssegos


Lembram adolescentes nus:
a doirada pele das nádegas
com marcas de carmim, a penugem
leve, mais encrespada e fulva
em torno do sexo distendido
e fácil, vulnerável aos desejos
de quem só o contempla e não ousa
aproximar dos flancos matinais
a crepuscular lentidão dos dedos.

Eugénio de Andrade

Sobre a Terra


Sei que estou vivo e cresço sobre a terra.
não porque tenha mais poder,
nem mais saber, nem mais haver.
Como lábio que suplica outro lábio,
como pequena e branca chama
de silencio,
como sopro obscuro do primeiro crepúsculo,
sei que estou vivo,
vivo sobre o teu peito,
sobre os teus flancos,
e cresço para ti.

Eugénio de Andrade

Rosa do Mundo


Rosa. Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.


Primeiro orvalho sobre o rosto.
que foi pétala
a pétala lenço de soluços.


Obscena rosa. Repartida
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.


Quase nada.

Eugénio de Andrade

As maças


Da alma só sei o que sabe o corpo:
onde a esperança e a graça
aspiram ao ardor
da chama é a morada do homem.
Vê como ardem as maças
na frágil luz de inverno
uma casa devia ser
assim: brilhar ao crepúsculo
sem usura nem vileza
com as maças por companhia.
Assim: limpa, madura.

Eugénio de Andrade

O Inominável


Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silencio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silencio
Nas próprias mãos
E nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.

Eugénio de Andrade

In Memorian


Esses mortos difíceis
Que não acabam de morrer
Dentro de nós; o sorriso
De fotografia,
A carícia suspensa, as folhas
Dos estios persistindo
Na poeira; difíceis;
O suor dos cavalos, o sorriso,
Como já disse, nos lábios,
Nas folhas dos livros;
Não acabam de morrer;
Tão difíceis, os amigos

sábado, 12 de abril de 2008

Eugénio de Andrade

Havia uma palavra


Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula.Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.
Do fundo do tempo,
martelava.
contra o muro.
Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.
de Matéria Solar

Eugénio de Andrade

O Pequeno Sismo


Há um pequeno sismo em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.
Elevas-me à altura da tua boca
lentamente
para não me desfolhares.
Tremo como se tivera
quinze anos e toda a terra
fosse leve.
Ó indizível primavera.

Eugénio de Andrade

Algumas Reflexões Sobre a Mulher


Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.


Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.


Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.


Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.


Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.


O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.


Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.


Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.


É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.


São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.


Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Eugénio de Andrade

Três ou quatro sílabas

 

Neste país

onde se morre de coração inacabado

deixarei apenas três ou quatro sílabas

de cal viva junto à água.

É só o que me resta

e o bosque inocente do teu peito

meu tresloucado e doce e frágil

pássaro das areias apagadas

Que estranho ofício o meu

procurar rente ao chão

uma folha entre a poeira e o sono

húmida ainda do primeiro sol.

de Véspera da Água

Eugénio de Andrade

Última Canção


Se puderes ainda
ouve-me, rio de cristal, ave
matutina. ouve-me,
luminoso fio tecido pela neve,
esquivo e sempre adiado
aceno do paraíso.
Ouve-me, se puderes ainda,
Devastador desejo,
fulvo animal de alegria.
Se não és alucinação
ou miragem ou quimera, ouve-me
ainda: vem agora
e não na hora da nossa morte
- dá-me a beber a própria sede.

Eugénio de Andrade

Urgentemente


É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

terça-feira, 18 de março de 2008

Eugénio de Andrade

Que música escutas tão atentamente

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

"Coração do Dia"

Eugénio de Andrade

Nem sempre o corpo se parece

Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol
atravessa o vidro,
ou um melro cante na neve.
Há um modo de olhar vindo
do deserto,
mirrado sopro de folhas,
de lábios, digo.

in "O peso da sombra"

Eugénio de Andrade

Há Dias

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.

"Os Lugares de Lume"

Eugénio de Andrade

À Beira de Água

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

 

"Os Sulcos da Sede"

Eugénio de Andrade

As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas

no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul.

 

Do Livro (1988):  "O Outro Nome da Terra"