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quinta-feira, 3 de abril de 2008

Virgínia Vitorino

Uma vez

Ama-se uma vez só. Mais de um amor
de nada serve e nada o justifica.
Um só amor absolve, santifica.
Quem ama uma só vez ama melhor.

Qualquer pessoa, seja lá quem for,
se a uma outra pessoa se dedica,
só com essa ternura será rica
e qualquer outra julgará pior...

Há dois amores? Qual é o verdadeiro?
Se há segundo, que é feito do primeiro?
Esta contradição quem foi que fez?

Quem ama assim julga que amou;
mas pode acreditar que se enganou
ou da primeira ou da segunda vez?

Virgínia Vitorino

Quando te vi

A manhã era clara, refulgente.
Uma manhã dourada. Tu passate.
Abriu mais uma flor em cada haste.
Teve mais brilho o sol, fez-se mais quente.

E eu inundei-me dessa luz ardente.
Depois não sei mais nada. Olhei... Olhaste...
E nunca mais te vi... - Raro contraste ! -
A madrugada transformou-se em poente.

Luz que nasceu e apenas cintulou!
Deixou-me triste assim que se apagou,
às vezes fecho os olhos; vejo-a ainda...

E há tanto sol  dourando esses trigais!
Olhaste, olhei, fugiste... Ai nunca mais,
nunca mais tive outra manhã tão linda!

Virgínia Vitorino

Soneto

Pela sagrado amor que vem de ti,
amor que eu amo com amor sagrado;
pelo Ideal descoberto e realizado,
- bendita seja a hora em que te vi !

Pelas malditas horas que vivi
no desejo de amor tão desejado;
pelas horas benditas ao teu lado,
- bendita seja a hora em que nasci!

Pelo triunfo enorme,pelo encanto
que me trouxeste, é que eu bendigo tanto
a hora suave que te viu nascer...

Amor do meu amor ! Amor tão forte,
que se um dia sentir a tua morte,
será bendita a hora em que eu morrer !

Virgínia Vitorino

Orgulho

És orgulhoso  altivo. Também eu.
Nem sei bem qual de nós o será mais,
as nossas forças são rivais:
se é grande o teu poder, maior é o meu.

Tão alto anda este orgulho! Toca o céu.
Nem eu quebro nem tu. Somos iguais.
Cremo-nos inimigos. Como tais
nenhum de nós ainda se rendeu.

Ontem, quando nos vimos frente a frente,
fingiste bem esse ar indiferente...
e eu, desdenhosa, ri, sem descorar...

Mas que lágrimas devo aquele riso!
E quanto, quanto esforco foi preciso
para, na tua frente, não chorar !

Virgínia Vitorino

Medo

Ouve o grande silencio destas horas!
Há quanto tempo não dizemos nada...
Tens no sorriso uma expressão magoada,
tens lágrimas nos olhos, e não choras!

As tuas mãos nas minhas mãos demoras
numa eloqüência muda, apaixonada...
Se o meu sombrio olhar de amargurada
procura o teu, sucumbes e descoras...

O momento mais triste de uma vida
é o momento fatal da despedida,
- Vê como o medo cresce em mim, latente...

Que assustadora, enorme sombra escura!
Eis afinal, amor, toda a tortura:
- vejo-te ainda, e já te sinto ausente!

Virgínia Vitorino

Mágoa

Eu que cheguei a ter essa alegria
de junto ao meu possuir teu coração!
Eu que julgava eterna a duração
do volutuoso amor que nos unia,

sou - apagada a última ilusão,
morto o deslumbramento em que vivia,
- um cego que ao lembrar a luz do dia
sente mais negra ainda a escuridão.

Tu me deste a ventura mais perfeita,
perdi-a e dei-te a chama insastisfeita
dessa imensa paixão com que te quis...

Hoje, o que eu sinto, inútil, revoltada,
não é mágoa de ser desgraçada,
- é pena de  ter sido tão feliz.

Virgínia Vitorino

Êxtase

Não sofras mais, amor, não digas nada!
Vem comigo; eu te levo. A noite é densa
e agora a voz do mar ficou suspensa,
dolorida, vibrante,apaixonada!

Não tarda muito a luz da madrugada...
Vem comigo! Não penses!
Não se pensa !
Vem à comquista da aventura imensa,
vê, como eu vou, feliz e deslumbrada!

Um grande sonho me enlouquece e invade!
Vem procurar comigo a Eternidade
esse país tão vago, tão distante...

Vem, que eu busco o palácio da quimera,
lá, onde seja eterna a primavera,
e a voz divina das estrelas cante!

Virgínia Vitorino

Diferentes

"Fala comigo, amor. Conta-me tudo:"
- assim dizia a tua linda carta.
As saudades que sofre quem se aparta!
E como eu sou feliz porque me iludo!

Custou-me que partisses. E , contudo
murmurei ao sabe-lo: "Pois que parta.-
Se o cansei, também me sinto farta,
e se mudar, então também eu mudo."

Foste...Escreves...São raras as verdade...
E contas-me sem sombras de saudades:
"Passeio... mato o tempo, assim...assim..."

Comigo quase o mesmo se está dando:
mas, em vez de ser eu que o vou matando,
o tempo é que me vai matando a mim...

Virgínia Vitorino

Certeza

O desejo maior de toda a gente
é ter um maior bem, de maior dura;
e longe, a procurá-lo, se amargura
tendo-o às vezes tão perto, e tão presente!

Deve ter sempre o coração consciente
quem se aventure a procurar ventura.
Deve sempre saber o que procura
para que não procure inutilmente.

O sonho que em mim arde e em mim se espande
há-de chegar ao fim,há-de ser grande!
O meu instinto é que o presente e diz...

Sei onde vou e a parte que me cabe!
E há tanta, tanta gente que não sabe
o que lhe falta para ser feliz!