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sexta-feira, 16 de maio de 2008

Pedro Homem de Mello

Fado

 

Porque é que Adeus me disseste

Ontem e não noutro dia,

Se os beijos que, ontem, me deste

Deixaram a noite fria?

Para quê voltar atrás

A uma esperança perdida?

As horas boas são más

Quando chega a despedida.

Meu coração já não sente.

Sei lá bem se já te vi!

Lembro-me de tanta gente

Que nem me lembro de ti.

Quem és tu que mal existes?

Entre nós, tudo acabou.

Mas pelos meus olhos tristes

Poderás saber quem sou!

Pedro Homem de Mello

Povo que lavas no rio

Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.


Fui ter à mesa redonda
Bebi em malga que me esconde
O beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
A água pura, puro agreste
Mas a tua vida não.


Aromas de luz e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.


Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.

Pedro Homem de Mello

Estranha forma de vida

 

Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha saudade


Foi por vontade de Deus
Que estranha forma de vida
Vive este meu coração
Vive de vida perdia


Quem lhe daria um condão
Que estranha forma de vida
Coração independente
Coração que eu não comando


Vive perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente
Eu não te acompanho mais


Pára, deixa de bater
Se não sabes aonde vais
Por que teimas em correr?
Eu não te acompanho mais

Pedro Homem de Mello

NÃO CHOREIS OS MORTOS

Não choreis nunca os mortos, esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos, adormecidos.


E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar…guardai, longe as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, mudos e vencidos.


Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.


E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

Pedro Homem de Mello

Com lírios nas mãos de neve,

Subi ao último andar,
A haver farda, era tão leve
Que fui subindo a cantar!
E fui subindo, subindo...
Só parei no patamar,
Abri as portas e janelas
Para poder respirar.
Tudo o que se via delas
Tinha a cor do meu olhar.
Da varanda me inclinei,
Para medir-lhe o tamanho.
Ai! dos vassalos de El-Rei
Aos quais El-Rei fica estranho!
Lá do alto, cá em baixo, o rio
Transformara-se em regato.
Reparei que, debruçadas,
Sobre o seu leito vazio,
Faias, apontando espadas,
Lhe exigiam um retrato.
Soprou, de súbito, o vento!
Varreu a noite a direito,
Rindo... Que risada fria!
Entanto o solar, ao vento,
Erecto fazendo peito,
Resistia, resistia...
Mas, das brechas do telhado,
Água, sôfrega, escorrera.
E o torreão do solar
- Ameias de pedra ou cera?
Era um pássaro assustado
Sem asas para voar.

Pedro Homem de Mello

POEMA

 

Noite. Fundura. A treva
E mais doce talvez…
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.

Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.

A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.

Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido…

Pedro Homem de Mello

REVELAÇÃO

 

Tinha quarenta e cinco... e eu, dezasseis...
Na minha fronte, indómitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.


Contavam dela: — Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.


Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!


Pela última vez foste mulher...
E eu, pela vez primeira, fui um homem

Pedro Homem de Mello

Povo Que Lavas No Rio

Povo que lavas no rio
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão
Há-de haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não


Fui ter à mesa redonda
Beber em malga que esconda
Um beijo de mão em mão
Era o vinho que me deste
Água pura em fruto agreste
Mas a tua vida não


Aromas de urze e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição
Povo, povo eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso
Mas a tua vida não

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