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segunda-feira, 6 de abril de 2009

António Cândido Gonçalves Crespo

Fervet amor

Dá para a cerca a estreita e humilde cela

dessa que os seus abandonou, trocando

o calor da família ameno e brando

pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos florões manuelinos da janela

papeiam aves o seu ninho armando;

vêem-se ao longe os trigos ondulando...

Maio sorri na pradaria bela.

Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:

nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:

zunem besouros e palpita o ninho.

E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,

do seu catre virgíneo sobre o linho

um par de borboletas, amoroso.

domingo, 5 de abril de 2009

António Cândido Gonçalves Crespo

"Mater Dolorosa".

Quando se fez ao largo a nave escura,

na praia essa mulher ficou chorando,

no doloroso aspecto figurando

a lacrimosa estátua da amargura.

Dos céus a curva era tranqüila e pura:

das gementes alcíones o bando

via-se ao longe, em círculos, voando

dos mares sobre a cérula planura.

Nas ondas se atufara o sol radioso,

e a lua sucedera, astro mavioso,

de alvor banhando os alcantis das fragas...

E aquela pobre mãe, não dando conta

que o sol morrera, e que o luar desponta,

a vista embebe na amplidão das vagas...

quarta-feira, 25 de março de 2009

António Cândido Gonçalves Crespo

NUM LEQUE

Amar se ser amado, que ventura!

Não amar, sendo amado, triste horror:

Mas na vida há uma noite mais escura,

É amar alguém que não nos tenha amor!