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domingo, 8 de junho de 2008

João Apolinário

os zeros relativos


Reduzo
o espaço
ao limite
do zero
nasce
o mundo
___
Não se pede à alma
que anteceda o corpo
se o nada só existe
depois de ser
concreto
____
Só das coisas reais
tenho o sentido
da transcendência
Não sei do homem mais
do que a essência
de ter vivido
____
Uma única
pétala
gera
um universo
de formas
em órbita
____
Tomo o ar
que respiro
e dou vida
aos deuses
invento a sombra
____
Do mar
faço a planície
para as estrelas
fecundarem a noite
os dinossauros
cantam
____
E da vida
faço este delírio
de batráquios
em fuga
roendo horizontes
____
Só na morte
ponho o zero
à esquerda
do zero
outro zero
começa
____
Depois
do ouro
velho
queremos
o vermelho

João Apolinário

“É Preciso Avisar...”

É preciso avisar toda a gente

dar notícia informar prevenir

que por cada flor estrangulada

há milhões de sementes a florir

É preciso avisar toda a gente

segredar a palavra e a senha

engrossando a verdade corrente

duma força que nada detenha

É preciso avisar toda a gente

que há fogo no meio da floresta

e que os mortos apontam em frente

o caminho da esperança que resta

É preciso avisar toda a gente

transmitindo este morse de dores

É preciso imperioso e urgente

mais flores mais flores mais flores

Morse de Sangue

João Apolinário

ecologia lírica


A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce

João Apolinário

 

e os números seguintes


  • Proponho ao sol
    queima nas piras
    dos infinitos
    convencionais
    todas as coisas
    que não sejam reais

  • 3.1
    Gasto
    este momento
    mágico
    a olhar
    para o fundo
    das coisas
    até ao limite
    do espanto

  • 3.2
    Deslumbra-me
    a minúcia
    do enigma
    da mais ínfima
    natureza viva

João Apolinário

da escrita


Da poesia
faço
uma raiz
que gera
a haste
oculta
da palavra
em flor
____
Abro as portas
desta melancolia
fechada no poema
por nascer
e sinto essa magia
suprema
de o escrever

João Apolinário

“A Pressa de Chegar...”

A pressa de chegar

correr correr

sem poder esperar

Chegar para morrer

 

A pressa de chegar

O desvario obtuso

O medo de parar

gasto pelo uso

de estar

A pressa de chegar

A pressa a louca pressa

de poder encontrar

aquilo que me esqueça

de levar

A pressa de chegar

correr correr

sem poder esperar

Chegar para morrer

 

O Guardador de Automóveis

João Apolinário

os infinitos íntimos


Não me cinjas
a voz
não me limites
não me queiras
assim
antecipado
Eu não existo
onde me pensas
Eu estou aqui
agora
é tudo
____
Esta causa
Que me retoma
Em cada dia
Age na esperança
Em que respira
Esta necessidade
De estar vivo
____
No círculo
em que se fecha
o que em mim
respira
há um suicídio
de memórias
que não cabem
no que em mim
existe
____
Já fui longe de mais
matando-me nas pedras
que atiro contra mim
sentindo o que não sei
____
Há por aí alguém
que queira vir comigo
atrás do que seremos
quando tivermos sido?
____
O que resta de nós
Dorme a noite invisível
Que ainda nos sobra
____
O que me cansa
é o diabo da esperança
____
O que ficará de mim
nos restos digitais
do tempo
quando chegar
o fim
de que me ausento