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quarta-feira, 2 de abril de 2008

Camilo Pessanha

Esvelta surge! Vem das aguas, nua

 

Esvelta surge! Vem das aguas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexiveis e o seio fremente...
Morre-me a bocca por beijar a tua.


Sem vil pudôr! Do que ha que ter vergonha?
Eis-me formoso, môço e casto, forte.
Tão branco o peito!—para o expôr á Morte...
Mas que ora—a infame!—não se te anteponha.


A hydra torpe!... Que a estrangulo... Esmago-a
De encontro á rocha onde a cabeça te ha-de,
Com os cabellos escorrendo agua,


Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.

Camilo Pessanha

Desce em folhedos tenros a collina

 

Desce em folhedos tenros a collina:
—Em glaucos, frouxos tons adormecidos,
Que saram, frescos, meus olhos ardidos,
Nos quaes a chamma do furor declina...


Oh vem, de branco,—do immo da folhagem!
Os ramos, leve, a tua mão aparte.
Oh vem! Meus olhos querem desposar-te
Reflectir-te virgem a serena imagem.


De silva doida uma haste esquíva
Quão delicada te osculou num dedo
Com um aljôfar côr de rosa viva!...


Ligeira a saia... Doce brisa impelle-a...
Oh vem! De branco! Do immo do arvoredo...
Alma de sylpho, carne de camelia...

Camilo Pessanha

Phonographo

 

Vae declamando um comico defunto,
Uma platêa ri, perdidamente,
Do bom jarreta... E ha um odôr no ambiente
A crypta e a pó,—do anachronico assumpto.


Muda o registo, eis uma barcarola:
Lirios, lirios, aguas do rio, a lua...
Ante o Seu corpo o sonho meu fluctua
Sobre um paúl,—extática corolla.


Muda outra vez: gorgeios, estribilhos
D'um clarim de oiro—o cheiro de junquilhos,
Vivido e agro!—tocando a alvorada...


Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que effluvio de violetas!

Camilo Pessanha

ESTATUA

 

Cancei-me de tentar o teu segrêdo:
No teu olhar sem côr,—frio escalpello,—
O meu olhar quebrei, a debate-lo,
Como a onda na crista d'um rochêdo.


Segrêdo d'essa alma e meu degrêdo
E minha obcessão! Para bebe-lo
Fui teu labio oscular, n'um pesadêlo,
Por noites de pavor, cheio de medo.


E o meu osculo ardente, allucinado,
Esfriou sobre o marmore correcto
D'esse entreaberto labio gelado...


D'esse labio de marmore, discreto,
Severo como um tumulo fechado,
Serêno como um pélago quieto.

Camilo Pessanha

Tatuagens complicadas do meu peito:

 

Trophéos, emblemas, dois leões aládos...
Mais, entre corações engrinaldados,
Um enorme, soberbo, amor-perfeito...


E o meu brazão... Tem de oiro n'um quartel
Vermelho, um lys; tem no outro uma donzella,
Em campo azul, de prata o corpo, aquella
Que é no meu braço como que um broquel.


Timbre: rompante, a megalomania...
Divisa: um ai,—que insiste noite e dia
Lembrando ruinas, sepulturas rasas...


Entre castelos serpes batalhantes,
E aguias de negro, desfraldando as azas,
Que realça de oiro um colar de besantes!