Google
 
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Alegre - Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Alegre - Poemas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Manuel Alegre

 

ABRIL DE ABRIL

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

30 Anos de Poesia - Publicações Dom Quixote

domingo, 25 de maio de 2008

Manuel Alegre

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

sábado, 24 de maio de 2008

Manuel Alegre

Flores para Coimbra

 

Que mil flores desabrochem. Que mil flores

(outras nenhumas) onde amores fenecem

que mil flores floresçam onde só dores florescem.

Que mil flores desabrochem. Que mil espadas

(outras nenhumas não) onde mil flores com espadas são cortadas que mil espadas floresçam em cada mão.

Que mil espadas floresçam

onde só penas são.

Antes que amores feneçam

que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.

Manuel Alegre

E Alegre se Fez Triste

Aquela clara madrugada que

viu lágrimas correrem no teu rosto

e alegre se fez triste como se

chovesse de repente em pleno agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos

meu nome no teu nome. E demorados

viu nossos olhos juntos nos segredos

que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.

Só ela viu teu rosto olhando a estrada

por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.

E ouviu dizer-me adeus: essa palavra

que fez tão triste a clara madrugada.

O CANTO E AS ARMAS, CENTELHA, COIMBRA, 1974

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Manuel Alegre

Coração Polar

 

I

Não sei de que cor são os navios

quando naufragam no meio dos teus braços

sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar

e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial

a tua promessa nos mastros de todos os veleiros

a ilha perfumada das tuas pernas

o teu ventre de conchas e corais

a gruta onde me esperas

com teus lábios de espuma e de salsugem

os teus naufrágios

e a grande equação do vento e da viagem

onde o acaso floresce com seus espelhos

seus indícios de rosa e descoberta.

Não sei de que cor é essa linha

onde se cruza a lua e a mastreação

mas sei que em cada rua há uma esquina

uma abertura entre a rotina e a maravilha

há uma hora de fogo para o azul

a hora em que te encontro e não te encontro

há um ângulo ao contrário

uma geometria mágica onde tudo pode ser possível

há um mar imaginário aberto em cada página

não me venham dizer que nunca mais

as rotas nascem do desejo

e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos

quero o teu nome escrito nas marés

nesta cidade onde no sítio mais absurdo

num sentido proibido ou num semáforo

todos os poentes me dizem quem tu és.

II

Ouvi dizer que há um veleiro que saiu do quadro

é ele que vem talvez na nuvem perigosa

esse veleiro desaparecido que somos todos nós.

Da minha janela vejo-o passar no vento sul

outras vezes sentado olhando o ângulo mágico

sinto a sua presença logarítmica

vem num alexandrino de

Cesário Verde

traz a ferragem e a maresia

traz o teu corpo irrepetível

o teu ventre subitamente perpendicular

à recta do horizonte e dos presságios

ou simplesmente a outra margem

o enigma cintilante a florir no cedro em frente

qual é esse país pergunto eu

qual é esse país onde tudo existe e não existe

qual é esse país de onde chega este perfume

este sabor a alga e despedida

esta lágrima só de o pensar e de o sentir.

Não é apenas um lugar físico algures no mapa

é talvez o adjectivo ocidental

o verbo ocidentir

o advérbio ocidentalmente

quem sabe se o substantivo ocidentimento.

Está na palma da mão no nervo no destino

e também no teu corpo aberto ao vento do nordeste

é talvez o teu rosto alegre e triste - esse país

que existe e não

existe.

Eu não sei de que cor são os navios

sei que por vezes

no mais recôndito recanto

no simples agitar de uma cortina

numa corrente de ar

num ritmo

há um brilho súbito de estrela e bússola

uma agulha magnética no pulso

um mar por dentro um mar de dentrop um mar

no pensamento.

SENHORA DAS TEMPESTADES, P. D. QUIXOTE, Lisboa, 1998

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Manuel Alegre

«Trova do Vento que Passa»

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não

Manuel Alegre

Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre

Sobre um mote de Camões

Se me desta terra for
eu vos levarei amor.
Nem amor deixo na terra
que deixando levarei.

Deixo a dor de te deixar
na terra onde amor não vive
na que levar levarei
amor onde só dor tive.

Nem amor pode ser livre
se não há na terra amor.
Deixo a dor de não levar
a dor de onde amor não vive.

E levo a terra que deixo
onde deixo a dor que tive.
Na que levar levarei
este amor que é livre livre.

Manuel Alegre

POEMA COM h PEQUENO


Cantarei o homem criador crucificado
em suas máquinas. Caçador caçado
por suas armas. Tocador tocado
por suas harpas.
Cantarei o homem vezes homem até ao infinito.
Cantarei o homem: esse mortal-imortal
meu amigo-inimigo. Meu irmão.


Cantarei o homem que transforma tudo
e tão dificilmente se transforma.
Ele que se escreve com h pequeno
em todas as coisas que são grandes.


Cantarei o homem no plural.
Ele que é tão singular
tão impossível de ser outro
senão ele próprio: o homem.


Cantarei o homem vezes homem até à massa.
Cantarei a massa vezes massa até ao homem.
Porque não sei de outra guerra. Não sei de outra paz.
Não sei de outro poema que não seja o homem.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Manuel Alegre

Senhora das Tempestades

 

Senhora das tempestades e dos mistérios originais

quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo

trazes o terramoto a assombração as conjunções fatais

e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo.

 

Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento

há uma lua do avesso quando chegas

crepúsculos carregados de presságios e o lamento

dos que morrem nos naufrágios Senhora das vozes negras.

 

Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma

nasce uma estrela cadente de chegares

e há um poema escrito em página nenhuma

quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.

 

Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse

trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte

teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse

quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte.

 

Escreverei para ti o poema mais triste

Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades

quando me tocas há um país que não existe

e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades.

 

Senhora do sol do sul com que me cegas

a terra toda treme nos meus músculos

consonância dissonância Senhoras das vozes negras

coroada de todos os crepúsculos.

 

Senhora da vida que passa e do sentido trágico

do rio das vogais Senhora da litúrgia

sibilação das consoantes com seu absurdo mágico

de que não fica senão a breve música.

 

Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita

alquimia de sons Senhora do vento norte

que trazes a palavra nunca dita

Senhora da minha vida Senhora da minha morte.

 

Senhora dos pés de cabra e dos parágrafos proibidos

que te disfarças de metáfora e de soprar marítimo

Senhora que me dóis em todos os sentidos

como um ritmo só ritmo como um ritmo.

 

Batem as sílabas da noite na oclusão das coronárias

Senhora da circulação que mata e ressuscita

trazes o mar a chuva as procelárias

batem as sílabas da noite e és tu a voz que dita.

 

Batem os sons os signos os sinais

trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes

fica o sentido trágico do rio das vogais

o mágico passar das consoantes.

 

Senhora nua deitada sobre o branco

com tua rosa-dos-ventos e teu cruzeiro do sul

nascem faunos com tridentes no teu flanco

Senhora de branco deitada no azul.

 

Senhora das águas transbordantes no cais de súbito vazio

Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância

teu rosto de sereia à proa de um navio

tudo em ti é partida tudo em ti é distância.

 

Senhora da hora solitária do entardecer

ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma

onde tu moras começa o acontecer

tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma.

 

Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes

Setembro te levou para as metrópoles excessivas

batem as sílabas do tempo no rolar dos meses

tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas.

 

Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso

tua ternura e teu chicote sobre a tristeza e a agonia

galopas no meu sangue com teu cateter chamado Pégaso

e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.

 

Tudo em ti é magia e tensão extrema

Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos

batem as sílabas da noite no coração do poema

Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.

 

Tudo em ti é milagre Senhora da energia

quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades

batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia

ao som do nome que só Deus sabe Senhoras das tempestades.

 

SENHORA DAS TEMPESTADES, P. D. QUIXOTE, Lisboa, 1998

Manuel Alegre

Regresso

 

E contudo perdendo-te encontraste.

E nem deuses nem monstros nem tiranos

te puderam deter. A mim os oceanos.

E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.

Tu mostraste que o mar era só mar.

Maior do que qualquer império

foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro

e já em Portugal estrangeiros somos.

Se em cada um de nós há ainda um marinheiro

vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal

e o Tempo. Porque é tempo de voltar

e de voltando achar em Portugal

esse país que se perdeu de mar em mar.

Manuel Alegre

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas

coisas do mar. Contar-te o amor ardente

e as ilhas que só há no verbo amar.

Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.

Contar-te longamente as misteriosas

maravilhas do verbo navegar.

E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi

num tempo doce coisa amar. E mar.

Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.

Contar-te o mar ardente e o verbo amar.

E longamente as coisas perigosas.