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quinta-feira, 10 de abril de 2008

Luis Vaz de Camões

Quem vê, Senhora, claro e manifesto

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só com vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.


Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e a alma por querê-los,
Donde já me não fica mais de resto.


Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.


Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que quanto mais vos pago, mais vos devo.

Luis Vaz de Camões

Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.


É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.


Estando em terra, chego ao Céu voando,
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar uma hora.


Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.

Luis Vaz de Camões

Endechas à Bárbara Escrava


Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
Nem
no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
Uma
graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
Pretidão
de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.


Presença
serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo,
E, pois nela vivo,
É força que viva.

Luis Vaz de Camões

Esparsa. Ao desconcerto do Mundo


Os bons vi sempre passar
No Mundo grandes tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luis Vaz de Camões

A um fidalgo que lhe Tardará com uma Camisa que lhe Prometera


Quem no mundo quisera ser
Havido por singular,
Para mais se engrandecer,
Há-de trazer sempre o dar
Nas ancas do prometer.
E já que Vossa Mercê
Largueza tem por divisa,
Como todo mundo vê,
Há mister que tanto dê,
Que venha a dar a camisa.

Luis Vaz de Camões

Apartaram-se os meus Olhos


Mote


Apartaram-se
os meus olhos
De mim tão longe.
Falsos amores,
Falsos, maus, enganadores!
Tratam-me
com cautela
Por me enganar mais asinha;
Dei-lhe posse da alma minha,
Foram-me fugir com ela.
Não há vê-los, nem há vê-la,
De mim tão longe.
Falsos amores,
Falsos, maus, enganadores!


Entreguei-lhe a liberdade
E, enfim, da vida o melhor.
Foram-se e do desamor
Fizeram necessidade.
Quem teve a sua vontade
De mim tão longe?
Falsos amores,
E tão cruéis matadores!

Não se pôs terra nem mar
Entre nós, que foram em vão,
Pôs-se vossa condição
Que tão doce é de passar.
Só ela vos quis levar
De mim tão longe!
Falsos amores
– E oxalá que enganadores!

Luis Vaz de Camões

Catarina é mais fermosa


Mote
Catarina
bem promete;
Eramá! como ela mente!


Voltas


Catarina
é mais fermosa
Pera mim que a luz do dia;
Mas mais fermosa seria,
Se não fosse mentirosa.
Hoje a vejo piedosa;
Amanhã tão diferente,
Que sempre cuido que mente.
Catarina
me mentiu
Muitas vezes, sem ter lei,
E todas lhe perdoei
Por uma só que cumpriu.
Se como me consentiu
Falar-lhe, o mais me consente,
Nunca mais direi que mente.
Má,
mentirosa, malvada,
Dizei: pera que mentis?
Prometeis, e não cumpris?
Pois sem cumprir, tudo é nada.
Nem sois bem aconselhada;
Que quem promete, se mente,
O que perde não no sente.
Jurou-me
aquela cadela
De vir, pela alma que tinha;
Enganou-me; tinha a minha,
Deu-lhe pouco de perdê-la.
A vida gasto após ela.
Porque ma dá, se promete;
Mas tira-ma, quando mente.
Tudo vos consentiria
Quanto quisésseis fazer,
Se esse vosso prometer
Fosse por me ter um dia.
Todo então me desfaria
Convosco; e vós, de contente,
Zombaríeis de quem mente.
Prometeu-me
ontem de vir,
Nunca mais apareceu;
Creio que não prometeu
Se não só por me mentir.
Faz-me, enfim, chorar e rir:
Rio quando me promete,
Mas choro quando me mente.
Mas
pois folgais de mentir,
Prometendo de me ver,
Eu vos deixo o prometer,
Deixai-me vós o cumprir:
Haveis então de sentir
Quanto a minha vida sente
O servir a quem lhe mente.

domingo, 6 de abril de 2008

Luis Vaz de Camões

Quem jaz no grão sepulcro, que descreve

Quem jaz no grão sepulcro, que descreve
tão ilustres sinais no forte escudo?
- Ninguém; que nisso, enfim, se toma tudo
mas foi quem tudo pôde e tudo teve.
Foi Rei?- Fez tudo quanto a Rei se deve;
pôs na guerra e na paz devido estudo;
mas quão pesado foi ao Mouro rudo
tanto lhe seja agora a terra leve.
Alexandre será?- Ninguém se engane;
que sustentar, mais que adquirir se estima.
- Será Adriano, grão senhor do mundo?
Mais observante foi da Lei de cima.
- E Numa?- Numa, não; mas é Joane:
de Portugal terceiro, sem segundo.

Luis Vaz de Camões

 

Males, que contra mim vos conjurastes,

Males, que contra mim vos conjurastes,
quanto há de durar tão duro intento?
Se dura porque dura meu tormento,
baste vos quanto já me atormentastes.
Mas se assi perfiais porque cuidastes
derrubar meu tão alto pensamento,
mais pode a causa dele, em que o sustento,
que vós, que dela mesma o ser tomastes.
E, pois vossa tenção, com minha morte,
há de acabar o mal destes amores,
dai já fim a um tormento tão comprido,
porque d'ambos contente seja a sorte:
vós, porque me acabastes, vencedores;
e eu, porque acabei de vós vencido.

Luis Vaz de Camões

 

          Debaixo desta pedra está metido...

Debaixo desta pedra está metido,
Das sanguinosas armas descansado,
O capitão ilustre, assinalado,
Dom Fernando de Castro esclarecido.
Por todo o Oriente tão temido,
E da inveja da fama tão cantado,
Este, pois, só agora sepultado,
Está aqui já em terra convertido.
Alegra-te, ó guerreira Lusitânia,
Por este Viriato que criaste,
E chora-o, perdido, eternamente.
Exemplo toma nisto de Dardânia,
Que, se a Roma co ele aniquilaste,
Nem por isso Cartago está contente.

Luis Vaz de Camões

Julga-me a gente toda por perdido

Julga-me a gente toda por perdido,

Vendo-me tão entregue a meu cuidado,

Andar sempre dos homens apartado

E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,

E quase que sobre ele ando dobrado,

Tenho por baixo, rústico, enganado

Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,

Busque riquezas, honras a outra gente,

Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento

De trazer esculpido eternamente

Vosso fermoso gesto dentro na alma.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Luis Vaz de Camões

TOMOU-SE VOSSA VISTA SOBERANA

 

Tomou-me vossa vista soberana
Aonde tinha as armas mais à mão,
Por mostrar que quem busca defensão
Contra esses belos olhos, que se engana.


Por ficar da vitória mais ufana,
Deixou-me armar primeiro da razão;
Cuidei de me salvar, mas foi em vão,
Que contra o Céu não vale defensa humana.


Mas porém, se vos tinha prometido
O vosso alto destino esta vitória,
Ser-vos tudo bem pouco está sabido.


Que posto que estivesse apercebido,
Não levais de vencer-me grande glória;
Maior a levo eu de ser vencido.

Luis Vaz de Camões

Transforma-se o amador...

Transforma-se o amador na coisa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.


Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.


Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,


Está no pensamento como idéia;
O vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

Luis Vaz de Camões

VENCIDO ESTÁ DE AMOR

Vencido está de amor Meu pensamento
O mais que pode ser Vencida a vida,
Sujeita a vos servir e Instituída,
Oferecendo tudo A vosso intento.


Contente deste bem, Louva o momento
Outra vez renovar Tão bem perdida;
A causa que me guia A tal ferida,
Ou hora em que se viu Seu perdimento.


Mil vezes desejando Está segura
Com essa pretensão Nesta empresa,
Tão estranha, tão doce, Honrosa e alta


Voltando só por vós Outra ventura,
Jurando não seguir Rara firmeza,
Sem ser no vosso amor Achado em falta.

Luis Vaz de Camões

UM MOVER D'OLHOS

Um mover dolhos, brando e piadoso,
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;


um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
ûa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;


um encolhido ousar; üa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;


esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.

Luis Vaz de Camões

VERDES SÃO OS CAMPOS

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.


Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.


Gado que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis,
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

terça-feira, 18 de março de 2008

Luis Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

segunda-feira, 17 de março de 2008

Luis Vaz de Camões

Acha a tenra mocidade

Acha a tenra mocidade
Prazeres acomodados,
E logo a maior idade
Já sente por pouquidade
Aqueles gostos passados.
Um gosto que hoje se alcança,
Amanhã já não o vejo;
Assim nos traz a mudança
De esperança em esperança
E de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
Que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
Que quanto da vida passa
Está receitando a morte!

Luis Vaz de Camões

Posto o Pensamento Nele


Mote
Na
fonte está Lianor
Lavando a talha e chorando,
Às amigas perguntando:
- Vistes lá o meu amor?
Posto
o pensamento nele,
Porque a tudo o amor obriga,
Cantava, mas a cantiga
Eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
O seu desejo enganando,
Às amigas perguntando:
- Vistes lá o meu amor?
O
rosto sobre ua mão,
Os olhos no chão pregados,
Que, do chorar já cansados,
Algum descanso lhe dão.
Desta sorte Lianor
Suspende de quando em quando
Sua dor; e, em si tornando,
Mais pesada sente a dor.
Não
deita dos olhos água,
Que não quer que a dor se abrande
Amor, porque, em mágoa grande,
Seca as lágrimas a mágoa.
Despois que de seu amor
Soube novas perguntando,
De improviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!