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quinta-feira, 12 de junho de 2008

José Campos de Figueiredo

FINGIMENTO


  • Iludo o sentido
    Da vida em que vivo.
    O mundo que sinto
    É mundo que minto.

  • É mundo pensado
    Aquém, do outro lado
    Da margem do rio
    Com águas em fio.

  • A imagem dos astros,
    Das velas, dos mastros,
    Das nuvens, das margens
    É sombra de imagens.

  • Perdidas no fundo
    Do engano do mundo.
    Não quero a certeza
    Da minha tristeza.

  • Deixai-me à vontade
    Naquela verdade
    Pensada e fingida
    Que é logro de vida.

  • Se minto o que sinto,
    De tudo o que minto
    Iludo o sentido
    Da vida que vivo.

José Campos de Figueiredo

AUTOCRÍTICA

 

Senhor! nunca me vi nem conheci
Dentro do negro abismo onde se esconde
O meu segredo humano, nem sei onde
Começa e acaba o que provém de ti!

Sei que errei o caminho e me perdi!
Agora, embora chame e grite e sonde,
No meu longo deserto, só responde
Ao longe, a voz do mar que nunca vi.

Em vão chamo por mim, em vão procuro
A luz que me pertence e que cintila
No fundo inquieto deste abismo escuro;

- Fio de água sumido nas areias, -
Vejo estátuas dramáticas de argila
Com dedadas fatais de mãos alheias!

José Campos de Figueiredo

O MILAGRE DAS ROSAS

 

Trazia ouro aos Pobres… dava estrelas,
que no jardim azul do céu colhera,
mas, quando El-Rei Dinis desejou vê-las,
floriu, no seu regaço, a primavera.

- «Vêde», são rosas brancas, fui colhê-las
para os gafos, Senhor! Julgáveis que era
dinheiro em vez de flores? A Deus prouvera
que em oiro e pão pudesse convertê-las!»

Repete-se o milagre, eternamente:
caem do céu, às horas do poente,
rosas de oiro, vermelhas, a sangrar…

E à noite, é Ela sempre que, na treva,
sobre a linda Cidade medieva,