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domingo, 12 de abril de 2009

António Gonçalves de Bandarra

Dedicatória a Dom João de Portugal, bispo da Guarda


SENTE BANDARRA
AS MALDADES DO MUNDO
E PARTICULARMENTE
AS DE PORTUGAL


I
Como nas Alcaçarias
Andam os couros às voltas,
Assim vejo grandes revoltas
Agora nas Cleresias.


II
Como usam de Simonias
E adoram os dinheiros,
As Igrejas, pardieiros,
Os corporais por mais vias.


III
O sumagre com a cal
Faz os couros ser mociços,
Ah! Quantos há maus noviços
Nessa Ordem Episcopal!
(...)


SONHO SEGUNDO


Oh! Quem tivera poder
Para dizer,
Os sonhos que o homem sonha!
Mas hei medo, que me ponha
Grão vergonha
De mos não quererem crer.
Vi um grão Leão correr
Sem se deter
Levar sua viagem,
Tomar passagem,
Sem nada lho defender.


Tirará toda a escória
Será paz em todo o Mundo,
De quatro Reis o segundo
Haverá todo a vitória.


Será dele tal memória
Por ser guardador da lei,
Polas armas deste Rei
Lhe darão triunfo, e glória.


Trinta e dois anos e meio
Haverá sinais na terra;
A Escritura não era;
Que aqui faz o conto cheio.


Um dos três que vão arreio
Demonstrar ser grão perigo;
Haverá açoite, e castigo
Em gente que não meneio.


Já o tempo desejado
É chegado
Segundo o firmal assenta
Já se passam os quarenta
Que se ementa
Por Doutor já passado.
O Rei novo é acordado
Já dá brado:
Já arressoa o seu pregão
Já Levi lhe dá a mão
Contra Siquém desmandado.
E segundo tenho ouvido,
E bem sabido,
Agora se cumprirá:
A desonra de Dina
Se vingará
Como está prometido.


O Rei novo és escolhido
E elegido,
Já alevanta a bandeira
Contra a Grifa parideira
Que tais pastos tem comido;
Porque haveis de notas,
E assentar
Aprazendo ao Rei dos Céus
Trará por ambas as Leis,
E nestes seis
Vereis coisas de espantar.


O néscio quer afirmar,
E declarar
Desde seis até setenta
Que se ementa,
Do Rei que irá livrar.
Louvemos este Barão
Do coração,
Porque é Rei de Direito;
Deus o fez todo perfeito
Dotado de perfeição.


Este Rei tem um Irmão,
Bom capitão.
Não se sabe a irmandade?
Todo é nobre, em bondade;
E na verdade
Que sairá com o pendão.


Muitos estão desejando,
E altercando,
Se o meu dito será certo,
Se de longe, se de perto?
E sobre o tal praticando
Aquele grão Patriarca
No-lo mostra, e está falando,
E declara o grão Monarca:
Ser das terras, e comarca,
Semente del Rei Fernando.


Este Rei de grão primor,
Com furor,
Passará o mar salgado
Em um cavalo enfreado,
E não selado,
Com gente de grão valor.


Este diz, socorrerá,
E tirará,
Aos que estão em tristura,
Desde, conta a Escritura,
Que o campo despejará,
Os Fidalgos estimados,


E desprezados,
Que até agora são corrigidos,
Com o tal serão erguidos,
E mui queridos,
E com os Reis estimados.
Se lerdes as Profecias
De Jeremias,
Irão dos cabos da terra
Tomar os Vales, e Serra,
Pondo guerra,
E tirar as heresias,
Derrubar as Monarquias,
E fantasias
Serão bem apontoadas,
Serão todas derrubadas,
Desconsoladas
Fora das possentadorias.


Ainda mais profetizando,
E declarando:
Seus pequenos das manadas,
Derrubar-lhe-ão as moradas
Bem entradas,
E assim o vai mostrando.
Já o Leão vai bradando,
E desejando
Correr o porco selvagem,
E tomá-lo-á na passagem
Assim o vai declarando.


Muitos podem responder,
E dizer:
Com que prova o sapateiro
Fazer isto verdadeiro,
Ou como isto pode ser?
Logo quero responder
Sem me deter.
Se lerdes as Profecias
De Daniel e Jeremias
Por Esdras o podeis ver.

António Gonçalves de Bandarra

 

António Gonçalves de Bandarra

António Gonçalves de Bandarra (1500-1556) nasceu e faleceu em Trancoso. Tendo exercido a profissão de sapateiro, dedicou-se à divulgação em verso de profecias de cariz messiânico. Por causa disso, foi acusado pela Inquisição de judaísmo e as suas trovas foram incluídas no Catálogo de Livros Proibidos. D. João de Castro foi o editor da primeira edição conjunta das trovas, com o título Paráfrase e Concordância de Algumas Profecias de Bandarra, publicadas provavelmente em Paris no ano de 1603. A obra foi bem recebida pelos nacionalistas portugueses que aspiravam libertar-se do jugo de Espanha, interpretando as trovas como uma profecia ao regresso do Rei D. Sebastião. Em 1802, as trovas tiveram uma segunda edição, na cidade francesa de Nantes, patrocinada pelo Marquês de Nisa. São reimpressas em 1809 (Barcelona e Londres), aquando das invasões francesas, com prefácio de Frei José Leonardo da Silva. Em 1815, com o título Trovas Inéditas do Bandarra sai uma nova edição. Entre 1822-1823, com o título Verdade e Complemento das Profecias, uma outra. As Trovas do Bandarra influenciaram o pensamento sebastianisma e messiánico de Padre António Vieira e de Fernando Pessoa.

Fonte : Projecto Vercial

sábado, 11 de abril de 2009

António Feliciano de Castilho

A TOMADA DE COIMBRA


(Xácara)


I


Caminhavam frades bentos
do mosteiro de Lorvão,
quando acharam Dom Fernando
no meio de Carrião:
era Dom Fernando o Rei,
e seu reino era Leão.


– D. Fernando, D. Fernando,
novas de consolação!
cavaleiros não nos oiçam;
manda sair quantos são.
Deus te nos manda dizer
que tens Coimbra na mão.


«Descuidados estão Moiros
do poderio cristão;
deles o havemos sabido
por sua conversação,
quando nos vêm de Coimbra
a montear em Lorvão.


«Fingimos uma romagem
por livrar de suspeição,
e viemos dar-te aviso,
grão Rei, senhor de Leão.
Manda logo fazer prestes
todo o ginete e peão.


Como três meses passaram,
era por Janeiro então,
el-Rei é sobre Coimbra,
e os de dentro em confusão;
mas vale o muro à cidade,
que é mui boa defensão.


Em que traz muitos vassalos
de caldeira e de pendão,
em que traz o Cid Rui Dias,
mais forte que quantos são,
não acaba de a tomar,
sete meses já lá vão.


..........................


Cristãos, ganhastes Coimbra,
mais que jóia oriental;
mais tu, Coimbra, ganhaste,
que tens fonte baptismal,
e a tua mesquita grande
verás logo em catedral.


Dar meia cidade aos monges
queria o Rei liberal,
mas os monges só quiseram
uma casa monacal,
contentes com Lorvão santo,
seu paraíso terreal.


Foi-se el-Rei a Compostela
com sua gente leal.
De atabales e trombetas
soa estrondo festival;
abrem-se as portas do templo
bem armado e triunfal.


Todos co'o joelho em terra
como cumpre em caso tal,
diziam de agradecidos
ao valedor imortal:
– «Santiago, Santiago,
salvaste o nosso arraial;
salva sempre os Leoneses,
e a gente de Portugal.»


Escavações Poéticas; 1844

António Feliciano de Castilho

OS TREZE ANOS


(Cantilena)


Já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro:
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.


Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já bailo ao domingo
com as mais no terreiro.


Já não sou Anita,
como era primeiro;
sou a Senhora Ana,
que mora no outeiro.


Nos serões já canto,
nas feiras já feiro,
já não me dá beijos
qualquer passageiro.


Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda,
de cima do outeiro.


E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho co'as patas
Ao pé do salgueiro.


Miro-me nas águas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.


Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que são cativeiro.


Em tudo, madrinha,
já por derradeiro
me vejo mui outra
da que era primeiro.


O meu gibão largo,
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Brás cabaneiro,


dizendo-lhe: «Toma
gibão, domingueiro,
de ilhoses de prata,
de arminho e cordeiro.


A mim já me aperta,
e a ti te é laceiro;
tu brincas co'as outras
e eu danço em terreiro».


Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro.


Já não sou Anita,
sou a Ana do outeiro;
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.


Não quero o sargento,
que é muito guerreiro,
de barbas mui feras
e olhar sobranceiro.


O mineiro é velho,
não quero o mineiro:
Mais valem treze anos
que todo o dinheiro.


Tão-pouco me agrado
do pobre moleiro,
que vive na azenha
como um prisioneiro.


Marido pretendo
de humor galhofeiro,
que viva por festas,
que brilhe em terreiro.


Que em ele assomando
co'o tamborileiro,
logo se alvorote
o lugar inteiro.


Que todos acorram
por vê-lo primeiro,
e todas perguntem
se ainda é solteiro.


E eu sempre com ele,
romeira e romeiro,
vivendo de bodas,
bailando ao pandeiro.


Ai, vida de gostos!
Ai, céu verdadeiro!
Ai, páscoa florida,
que dura ano inteiro!


Da parte, madrinha,
de Deus vos requeiro:
Casai-me hoje mesmo
com Pedro Gaiteiro.


Escavações Poéticas; 1844

sexta-feira, 10 de abril de 2009

António Feliciano de Castilho

DEUCALIÃO E PIRRA


Enfim, renasce o mundo. Vendo o triste,
o bom Deucalião vazia a Terra
e alto silêncio derramado em tudo,
a Pirra diz, chorando:
– Ó doce esposa,
doce irmã e hoje única de tantas
habitantes do Mundo, e que ligada
pelo amor, pelo sangue estás comigo.
e ao presente inda mais pelo infortúnio,
– do Nascente ao Poente, em toda a Terra.
só habitamos nós; só nós vivemos:
tudo o mais pelas ondas foi tragado,
e cuido que não tens inda segura
tua existência tu, nem eu a minha.
Estas nuvens que observo inda me aterram:
Ah, triste! Que farias, se arrancada
ao fado universal, sem mim te visses?


Onde, fria de susto, onde levaras
a planta vacilante, e quem seria
tua consolação na dor, no pranto?
Crê. minha amada, que, se o mar sanhudo
te escondesse nas sôfregas entranhas,
te houvera de seguir o aflito esposo:
sócio te fora em vida e sócio em morte.
Oh! Não ter eu de um pai herdado a indústria?
Renovaria agora a Humanidade.
alma infundindo na formada Terra.
Todo o género humano em nós se inclui.
Isto aos fados apraz, apraz aos deuses.
Ficámos para exemplo de que o Mundo
morada de homens foi.
Disse, e choravam.
Depois, tornando em si, resolvem ambos
recorrer aos oráculos sagrados,
da deusa Témis invocar o auxílio.


Não tardam: vão-se à margem do Cefiso,
inda revolto, sim, mas já com margens;
e, apenas pelas frontes, pelas vestes
os libados licores desparziram.
para o templo da deusa os passos torcem.
Manchava torpe musgo a frente, os tectos
da estância venerável, e jaziam
sem ministro, sem luz, sem culto as aras.
Como as sacros degraus tocado houvessem,
sobre a mádida terra os dois se prostram
e dão nas pedras ósculo medroso.
Oram depois assim:
– Se justas preces
tornam benignos os irados numes;
se a cólera dos Céus com ais se adoça,
dize-nos, deusa, dize-nos de que arte
podemos restaurar a espécie humana
e socorre, piedosa, o triste mundo.
Movendo-se a deidade, assim lhes fala:
– Do meu templo saí cobrindo as frontes:
soltai as vestiduras que vos cingem
e para trás depois lançai os ossos
da vossa grande mãe.


Tendo ficado
atónitos as dois espaço grande,
Pirra primeiro enfim rompe o silêncio.
Da divindade as leis cumprir não ousa
e, com trémula voz, perdão lhe roga,
porque teme, espalhando os ossos frios,
aos Manes maternais fazer injúria.
Depois disto, repetem, pesam, notam
as palavras do oráculo sombrio,
'té que Deucalião, o venerando
filho de Prometeu, com brandas vozes
serena a cara esposa e diz:
Se acaso
não revolvo ilusões no pensamento,
o oráculo da deusa é justo, é pio:
não nos ordena o mal, não quer um crime.
A grande mãe que ouviste, a mãe de todos,
é a Terra; a meu ver, são dela os ossos
as pedras; e essas diz que atrás lancemos.


Bem que esta inteligência agrade a Pirra,
esperanças com dúvidas se envolvem,
e ambos das ordens santas desconfiam.
Mas que mal faz tentar? Descem do templo:
cobrem a fronte; as túnicas descingem,
e logo para trás as pedras lançam.
Eis, – quem te dera crédito, ó portento,
se anosa tradição não te abonasse? –
eis que as pedras de súbito começam
a despir-se do frio e da rijeza
e, despindo a rijeza, a transformar-se.
Crescendo vão: mais branda natureza
lhes entra; e, se perfeito o vulto humano
logo ali se não vê, se vê contudo
em grosseiros sinais a semelhança,
quais; mármores apenas desbastados,
estátuas em começo, informes, rudes.
Partes que eram terrenas e sucosas
nas carnes e no sangue se convertem;
o que tem solidez e o que não dobra
muda-se em ossos, e o que dantes nelas
veia se nomeou conserva o nome.
Num breve espaço, enfim – mercê dos deuses! –,
as que arroja o varão varões se tornam
e as que solta a mulher mulheres ficam.


Por isto. somos fortes, somos duros,
aptos a empresas, próprios a trabalhos;
e em nosso esforço, na constância nossa,
claramente se vê que origem temos.


As Metamorfoses de Ovídio, Liv. I

António Feliciano de Castilho

O AVARENTO ROUBADO


Harpagão

(Vindo a gritar desde o quintal até entrar em cena, com as feições desconcertadas, e no auge do terror)

Aqui de el-rei, ladrões! Ladrões, aqui de el-rei!
Querem-me assassinar. Mataram-me. Acabei.
Justiça, Deus do céu! Ó da ronda! Ó da guarda!
Estou perdido e morto! um chuço! uma espingarda!
Roubaram-me o meu sangue, os meus dez mil cruzados!
Quem seria? Quem foi? Persigam-me os malvados!
Quem mos trouxer co roubo of'reço-lhe um quartinho...
meia moeda... mais, que eu nunca fui mesquinho.
Para onde fugiu? Onde está ele? Aonde?
Corram, vasculhem tudo, a ver onde se esconde.
Ali não!... Aqui não!.. Agarra o bandoleiro!
Vê-lo cá vai... Agarra, agarra o meu dinheiro!


(Agita-se bracejando à doida, e agarra com a mão direita o braço esquerdo)


Filei-te, mariolão! Larga o que não é teu!...
Estou perdido e doido: o que apanhei fui eu.
E eu quem sou? Onde estou? Que hei-de fazer? Que posso?
Ah, meus ricos dobrões, se eu era todo vosso,
como pudestes vós deixar-me só no mundo?
Que situação! Que horror! Que inferno tão profundo!
Ninguém tem dó de mim; sou Lázaro; sou Job.


(Chora e soluça despropositadamente)


Perdi tudo, e ninguém de mim tem dó.


(Numa explosão de delírio)


Enforcar tudo a esmo, até que surda alguém
co meu cofre; aliás enforco-me eu também.


............................


De que me hei-de valer? Demónio, eu te requeiro:
leva-me um olho... e as dois, mas dá-me o meu dinheiro!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

António Feliciano de Castilho

 

FESTA DO DEUS TÉRMINO


Finda a noite, alvoreça a costumada
festa do deus que nos comparte os campos.


Quer tosca pedra, ó Término, te embleme,
quer tronco informe pela mão de antigos
enterrado no chão, sempre és deidade.


Para ti donos dois, de opostas partes,
coroa e coroa te cingem; bolo e bolo
te vem de cá, de lá; como à porfia,
aí se te engenhou ara campestre.


Lá nos traz a açodada fazendeira
no seu testo quebrado as áscuas vivas
que apurou do borralho. O bom do velho
racha a lenha miúda, ergue-a em pirâmide;
sua a cravar no chão ramos festivos.
Agora em cascas secas ceva o fogo,
tendo em pé ao seu lado, em quanto assopra,
o filhinho abraçado a largo cesto.
Três vezes dali tira a lança ao fogo
punhados de áurea Ceres. Toma os favos,
que a filha pequenina lhe apresenta
pelo meio cortados. Trazem outros
o vinho; tudo aqui se liba às chamas.


Alvitrajada a turba espectadora
religioso silêncio atenta observa.
Com o sangue quente de imolada ovelha
que ufano purpureja o vulto informe
do comum velador, o honrado Término!
e quando, em vez de ovelha, haja leitoa,
não temais que se anoje. O bródio é franco
aos bons vizinhos, corações lavados,
que o celebram com fé, que jubilosos
vão tecendo um louvor a cada prato.
Ouvi, ouvi seu rústico descante;
é do deus do festejo o panegírico:


Salve, ó Término sacro, ó tu, que extremas
bairros, cidades, reinos! cada campo
fora sem ti um campo de batalha.
Manténs, desambicioso, insubornável,
as herdades em paz das Leis à sombra.
Se a terra Thireátide te houvera,
não ceifaria a morte heróis seiscentos
de Argos e Esparta no fatal duelo;
não se lera de Othriades o nome
num vão troféu de mentirosas armas,
que inda à Pátria infeliz custou mais sangue.
Capitolino Júpiter que diga
que invencível te achou, quando ao fundar-se-lhe
a área do templo, ao passo que os mais numes
para dar-lhe lugar retrocediam,
tu só, qual no-lo conta anosa fama,
ousas te resistir, ficar, ter parte
no templo augusto, e adorações com Jove;
e inda lá, por que nada alfim te ensombre,
sobre ti ao céu livre é rota a abóbada.
Nume de tão gentil perseverança,
em qualquer a leveza achará vénia;
contradição em ti suicídio fora.
Mantêm pois sempre, ó sacra sentinela,
mantém pois sempre, ó Término, teu posto.
Despreza os rogos do vizinho avaro;
não lhe concedas do terreno um ponto.
Ceder a humanos quem resiste a Jove?!
Vem bater-te enxadão, pulsar-te arado?
proclama a vozes: "Meus confins são estes;
"de além, tu; de aquém, ele; ambos coíbo.
"e em coibir aos dois aos dois protejo."
Uma estrada une Roma aos Laurentinos,
reino que o Teucro prófugo buscara;
lá, dos marcos o sexto em honra tua
vê que lanosa vítima se imola.
Término, já que aceitas cultos nossos,
ampara-nos; sustenta o nosso Império.
De cada povo o espaço é circunscrito;
são de Roma os confins confins do globo

António Feliciano de Castilho

FESTA DAS SEMENTEIRAS:


Nos Anais, onde as festas vêm marcadas,
festas em vão busquei das sementeiras.
Vendo-me a folhear, cuidoso, assíduo,
e entendendo-me o empenho, – "Em balde as buscas
rindo a Musa me diz; – "festas mudáveis
"das fixas no registro achar querias?
"Têm marcada estação, e o dia incerto;
"celebram-se no prazo em que estão prenhes
"de sementes os chãos. Gozai do ócio
"à farta manjedoira, ó bois coroados;
"lá virá logo a activa Primavera,
"à cerviz repoisada impondo jugo,
"com a renascente lida afadigar-vos.
"No abrigo do casal durma por ora
"a cansada charrua; a terra fria
"não deseja, não sofre, o ser rasgada."


Agora, que jaz finda a sementeira,
lavradores, dai folga ao solo, aos braços;
lustrem colonos sua aldeia em festa,
dêem a seus fogos a anual fogaça.
Télus e Ceres, madres das searas
já com seus mesmos grãos se propiciem,
já com as entranhas da suína fêmea.
De entre ambas nasce o grão que nos sustenta:
Ceres no-lo produz; mantém-no a Terra.


Ó consócias em dádiva tão rica,
deusas, por quem a rude antiguidade
se abrandou, se poliu, deixada a glande
por mais nobre manjar, dai aos colonos,
em prémio a seu trabalho e a seus desvelos,
colheita sem medida, e que os sacie.


Dai aumento contínuo aos germes tenros,
e que a neve à nascença os não destrua.
Em quanto disparzirmos as sementes,
alimpai-nos o céu com ventos brandos;
mal que enterrada for, mandai-lhe as chuvas;
e, pois são glória vossa as pingues messes,
que em vagas de oiro, ao longo dessas veigas,
rumorejam fartura, eia, salve-as
do ávido bico das aladas hostes!
Por ora, que inda a terra o grão recata,
vós, formigas povoai-o; usura grande
havereis dele, se aguardais a ceifa.
Livre de torpe alforra a messe vingue
e cor de palma saúde o Céu lhe influa;
que nem definhe pálida, nem perca
por excesso de viço e nímia pompa.
Joio, à vista nocivo, os chãos não brotem,
nem torpe aveia as sementeiras mescle.
Só se vejam medrar profusamente
as cevadas, o trigo, e a rija escándia,
a escándia, a fogos dois predestinada.


Lavradores, por vós tais são meus rogos.
Com os rogos meus os vossos se misturem,
por que uma e outra deusa os ratifiquem.


Ferina longo tempo a humanidade
só nutriu belicosos pensamentos.
Mais apreço que a relha a espada tinha,
e em foros de nobreza era anteposto
o corcel que peleja, ao boi que lavra.
Não trabalhava a enxada; ia-se em lanças
dos alviões o ferro; o ancinho em elmos.
Graças deusas, a vós, a vós, ó Césares
o Génio marcial agrilhoado
já sob os pés de Roma em vão se extorce.
O toiro aceite o jugo; o solo, os germes;
Ceres, filha da paz, com a paz triunfe.

António Feliciano de Castilho

Antonio Feliciano de Castilho

António Feliciano de Castilho (1800-1875) nasceu e faleceu em Lisboa. Aos seis anos, por motivo do sarampo, cegou. Não obstante isso, seguiu estudos regulares, graças ao auxílio de seu irmão Augusto Frederico. Em 1817, matriculou-se na Universidade e em 1826 estava formado em Cânones. A seguir, fixou-se com o irmão em Castanheira do Vouga, perto de Águeda, e aí se conservou uns oito anos, em situação que muito favoreceu o estudo e a produção literária. Esteve na Madeira e nos Açores e visitou o Brasil. – Dedicou-se à tradução de obras em latim, francês e inglês.

Obras Principais:

Cartas de Eco e Narciso (1821); A Primavera (1822); Amor e Melancolia (1828); A Chave do Enigma; A Noite do Castelo (1836); Os Ciúmes do Bardo (1836); Crónica Certa e muito Verdadeira de Maria da Fonte (1846); Felicidade pela Agricultura (1849); Escavações Poéticas (1844); Presbitério da Montanha; Quadros da História de Portugal (1838); O Outono (1863).

Traduções:

A Lírica de Anacreonte; Metamorfoses e Amores, de Ovídio; Geórgicas, de Virgílio; Médico à Força, Tartufo, O Avarento, Doente de Cisma, Sabichonas e Misantropo, de Molière; O Sonho de uma Noite de S. João, de Shakespeare; Fausto, de Goethe.; D. Quixote de La Mancha, de Cervantes.

Fonte: Projecto Vercial

Outros Links:

  • Obras de António Feliciano de Castilho na Biblioteca Nacional Digital
  • António Feliciano de Castilho no Dicionário Histórico de Portugal
  • António Feliciano de Castilho na wikipedia
  • António Feliciano de Castilho no Projecto Vercial
  • António Feliciano de Castlho na Wikisource

  • quarta-feira, 8 de abril de 2009

    António Dinis da Cruz e Silva

    Soneto

    Que aziago que foi, que dia infausto

    Aquele, em que vi tua formosura!

    Em que cheio de amor e de ternura

    Esta alma te ofertei em holocausto!

    Teus olhos m'o fizeram ter por fausto,

    Teus belos olhos cheios de doçura,

    Mas logo me fez ver minha loucura

    Teu peito de rigores nunca exausto.

    Ai! e quão mesquinho é, quão desgraçado

    Aquele, que como as mostras vão se engana

    De um angélico rosto sossegado!

     

    Pois mil vezes encobre a vista humana

    Qual áspide cruel florido prado,

    Um coração uma alma desumana.

    António Dinis da Cruz e Silva

    O HISSOPE

    CANTO V


    O bom Lara, que havia longo tempo
    que nesta santa casa não entrava,
    aturdido ficou, quando a seus olhos,
    na cerca entrando juntos, se oferecem
    as areadas ruas, as estátuas,
    os buxos, os craveiros, as latadas
    de mil flores cobertas, que de em torno
    o virente jardim adereçavam.
    E não bem quatro passos tinha dado,
    quando, fitando curioso a lente
    na estátua que primeira ali se encontra.
    pergunta ao jubilado: – «Quem é este
    Monsieur Paris, segundo diz a letra,
    que por baixo, na base, tem aberta?
    Se se houver de julgar pela aparência,
    o nome, a catadura, o penteado
    dizendo-nos estão que este bilhostre
    foi francês e talvez cabeleireiro.
    inventor do topete que o enfeita».
    – «Páris e não Paris diz o letreiro
    (circunspecto lhe volve o padre-mestre).
    Nem francês, como crê, cabeleireiro.
    a personagem foi que representa,
    mas em Tróia nasceu, de estirpe régia».
    – «Pois se francês não foi (replica o Lara)
    como Monsieur lhe chamam?» C'um sorriso
    lhe torna o padre-mestre: – «Não se admire.
    que isto está sucedendo a cada passo
    ao pé de cada esquina, hoje, sem pejo,
    se tratam de monsieurs os Portugueses.
    Isto, senhor. é moda; e, como é moda.
    a quisemos seguir; e sobretudo
    mostrar ao mundo que francês sabemos».
    – «De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
    ó, padre jubilado, por ventura,
    o saber o francês, que disso alarde
    fazer quisessem vossas reverências?
    Por acaso, sem esse sacramento,
    não podiam salvar-se e serem sábios?
    Pois aqui, em segredo, lhe descubro
    que o francês, para mim, o mesmo monta
    que a língua dos selvagens boticudos»
    – «Não diga, senhor, tal; que neste tempo,
    oh tempos! oh costumes! (diz o padre)
    o saber francês é saber tudo.
    É pasmar ver, senhor, como um pascácio
    de francês com dois dedos, se abalança,
    perante os homens doutos e sisudos,
    a falar nas ciências mais profundas,
    sem que lhe escape a santa teologia,
    alta ciência aos claustros reservada.

    Desta audácia, senhor, deste descoco
    que entre nós, sem limite, vai lavrando,
    quem mais sente as terríveis consequências
    é a nossa português casta linguagem,
    que em tantas traduções anda envasada
    (traduções que merecem ser queimadas!)
    em mil termos e frases galicanas.
    Ah! se as marmóreas campas levantando,
    saíssem dos sepulcros, onde jazem
    suas honradas cinzas, os antigos,
    lusitanos varões, que com a pena
    ou com a espada e lança a pátria ornaram,
    os novos idiotismos escutando.
    a mesclada dicção, bastardos termos,
    com que enfeitar intentam seus escritos
    estes novos ridículos autores,
    (como se a bela e fértil língua nossa,
    primogénita filha da latina,
    precisasse de estranhos atavios!)
    súbito certamente pensariam
    que nos serões estavam de Caconda.
    Quelimane, Sofala ou Moçambique;
    até que, já por fim desenganados
    que eram em Portugal, que Portugueses
    eram também os que costumes, língua,
    por tão estranhos modos afrontavam,
    segunda vez de pejo morreriam».
    (...)

    terça-feira, 7 de abril de 2009

    António Dinis da Cruz e Silva

    - "Esse barco, que corta velozmente

    do claro Tejo a veia cristalina,

    ó doce mãe do Amor, bela Ericina,

    todo o meu bem me leva cruelmente.

    Mas já que é tão feliz, Deusa, exprimente

    de tua estrela a proteção divina:

    de alegres auras viração benina

    ao doce porto o leve felizmente".

    Isto dizia Elpino, acompanhando

    com os tristes olhos um batel ligeiro,

    que quase no horizonte se ocultava.

    Turva se foi a noite então cerrando,

    e o pastor, entre o denso nevoeiro,

    os olhos pelas ondas alongava...

    António Dinis da Cruz e Silva

     

    António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) formou-se em Direito.

    Depois de exercer funções de magistratura em Castelo de Vide e Elvas, foi nomeado desembargador da Relação do Rio de Janeiro, aí permanecendo entre 1776 e 1789. Voltou ao Brasil em 1890 para julgar os implicados na revolução de Tiradentes, na qual estava implicado o poeta Tomás Gonzaga.

    Hissope

    Foi um dos fundadores da Arcádia Lusitana em 1756, adoptando o pseudónimo de Elpino Nonacriense. Além de poemas várias, escreveu o Hissope, poema heróico-cómico.

     

    segunda-feira, 6 de abril de 2009

    Almeida Garrett

     

    “Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante
    e mais poética parte das nossas crónicas está escrita, rico
    de iluminuras, de recortados, de florões, de imagens, de
    arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais belo
    e o mais precioso de Portugal.”

    António Cândido Gonçalves Crespo

    Fervet amor

    Dá para a cerca a estreita e humilde cela

    dessa que os seus abandonou, trocando

    o calor da família ameno e brando

    pelo claustro que o sangue esfria e gela.

    Nos florões manuelinos da janela

    papeiam aves o seu ninho armando;

    vêem-se ao longe os trigos ondulando...

    Maio sorri na pradaria bela.

    Zumbe o inseto na flor do rosmaninho:

    nas giestas pousa a abelha ébria de gozo:

    zunem besouros e palpita o ninho.

    E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,

    do seu catre virgíneo sobre o linho

    um par de borboletas, amoroso.